quinta-feira, 19 de julho de 2007

CONFERÊNCIA II: 14 DE NOVEMBRO DE 1928

Dr. Jung: Temos uma pergunta: "Como é que criamos símbolos em nossos sonhos? Como podemos estar certos de que a interpretação é correta, especialmente quando não há associações?" Esta, é claro, é uma pergunta muito prática e fundamental. Eu não submeti isto à consideração, até aqui, porque supus como garantido que vocês compreenderam a teoria de análise de sonhos. Estamos convictos de que os sonhos têm significado simbólico, e nós não sabemos se a interpretação está correta, mas fazemos a hipótese de que um sonho significa algo. Suponha que alguém tem um caso que apresenta um problema difícil e tenha chegado a um impasse na análise; há sintomas neuróticos, tentou-se a hipnose e outros métodos, mas nada funciona. Então onde está a chave para destrancar aquela porta? O paciente não sabe. É muito difícil dar uma demonstração da análise de sonhos; não se pode dar completos particulares de um caso de modo a planificá-lo, porque isso envolve toda a história da vida do paciente. Mas aqui está um caso simples:
44 Um tenente suíço[1], oficial da infantaria, um homem de mente simples com uma inteligência não maior que a média, bastante destituído de complexos mentais, veio mancando à minha sala, caminhando de uma maneira muito cautelosa e queixando-se de dores em seus pés, especialmente nos calcanhares, e também em seu coração, "como se estivesse apunhalado". (Sempre temos dores onde nos é mais prejudicial e mais perturbador; nos pés para um oficial de infantaria; um tenor as teria na garganta). Estes sintomas começaram dois meses antes de ele vir a mim; ele fôra tratado por vários médicos e havia tentado hipnose, eletricidade, banhos, etc., mas não conseguiu ajuda. Eu perguntei onde o problema começou, mas seu rosto estava absolutamente inexpressivo; era evidente que ele não tinha idéia, e parecia-lhe impossível me fornecer qualquer material. Todas as perguntas foram em vão. Senti-me quase sem esperanças - o homem era suíço e perfeitamente livre de quaisquer complicações psicológicas - mas pensei, como último recurso, que podiam haver sonhos dos quais algo seria capturado. Os sonhos "transpiram", não estão sob controle; não importa o quão inocente e simples a pessoa seja, há sonhos a partir dos quais se obtém algo só se for possível capturar qualquer extremidade que possa estar de fora. Eu estava certo de que o problema devia ser devido a algum conflito emocional, ou ele não teria tais sintomas, todos de uma vez. Então eu disse a ele: "Não sei qual é a razão para seus sintomas, mas você pode me contar seus sonhos". Fazendo isso eu corri o risco de ser tomado por bruxo por um homem de mente tão simples; perguntar sobre sonhos é quase obsceno, de tal modo que eu tinha que explicar muito cuidadosamente o porquê de eu tê-lo feito. Ele teve grande dificuldade em relembrar seus sonhos, mas produziu alguns recortes e finalmente trouxe um que ocorreu-lhe como muito peculiar e que tinha, evidentemente, causado uma impressão nele: "Eu estava andando num campo aberto e pisei em uma serpente que me mordeu no calcanhar, e me senti envenenado. Acordei assustado". Eu perguntei a ele se pensava algo em particular a respeito da cobra, e ele disse: "Uma perigosa - aquela cobra poderia matar um homem - muito doloroso ser picado por uma cobra". Ele nunca foi efetivamente picado por uma cobra, mas picadas de cobra podem causar dor como a dele. Lembrem-se do dito bíblico do Gênesis: "A serpente ofenderá teu calcanhar enquanto estiveres pisando sobre sua cabeça"[2]. Eu sugeri uma cobra metafórica e ele disse: "Oh, você se refere a uma mulher?" e mostrou emoção. "Há talvez algo desta espécie?" Primeiramente ele negou; então, finalmente admitiu que cerca de três meses antes ele quase estivera noivo, mas quando retornou do serviço outro homem a possuía. "Você ficou triste?" "Oh, se ela não me quer, eu tomo outra". Eu comentei que algumas vezes homens muito fortes ficavam grandemente angustiados. Ele manteve uma atitude de indiferença, tentou despistar, mas em breve estava chorando. O caso estava perfeitamente claro. Ele havia reprimido seu sentimento a respeito dela e sua emoção ao "levar o fora". Ele a amaldiçoou, disse que todas as mulheres eram iguais, e tentou tomar outra, e não podia ver por que não tivera sucesso. Quando percebeu seu sentimento real, ficou profundamente comovido e as dores em seus calcanhares e pés se foram; elas eram meramente dor reprimida. As dores no coração continuaram, mas estas referiam-se a alguma outra coisa; não me deterei sobre isto - eu tomei as dores no calcanhar como um exemplo útil. Este sonho levou diretamente ao cerne da questão.
45 Para um homem, uma cobra é eternamente uma mulher[3]. A cobra do Paraíso é representada, em figuras antigas, com a cabeça de uma mulher. Este homem provavelmente não conhecia o dito bíblico sobre a cobra machucando o calcanhar do homem, mas a imagem estava lá em seu inconsciente. Pense em Rá, no hino egípcio, picado pela cobra formada a partir da terra[4], e colocada em seu caminho por Ísis, sua amada esposa; ela envenenou-o para ser capaz de curá-lo novamente. Esta é a psicologia das mulheres venenosas. No tempo de Luís XIV, houve um caso famoso de uma mulher que envenenou seu fiel criado de modo a ter o prazer de cuidar[5] dele, o que ela fez com extraordinário autosacrifício, durante quatro anos, até a morte dele; todos a qualificavam santa. Então ela envenenou seu velho tio do mesmo modo e cuidou dele, mas desta vez ela foi descoberta, e feita em quatro pedaços por quatro cavalos, uma punição ajustada que ela fartamente merecia.
46 O caso do oficial mostra como um sonho pode fornecer a chave. Algo vaza, mesmo nas pessoas que estão bem defendidas; pode-se eventualmente obter o auxílio necessário, sem o qual o analista não consegue destravar a psicologia de um paciente. É por isto que consultamos os sonhos. Não se pode dizer, de qualquer sonho em particular, que ele tenha um significado; é sempre uma hipótese, nunca se tem certeza; experimenta-se e se descobre se o sonho está corretamente interpretado pelo efeito sobre o paciente. A maioria das pessoas, depois de certa extensão de análise dos sonhos, sabe quando a interpretação "clica"; quando há o sentimento de que ela atinge absolutamente o fato, sabe-se que se está na trilha certa. Explica-se os sonhos sobre uma certa teoria, e se a interpretação estiver absolutamente incorreta, o efeito no paciente mostrará isso, o inconsciente reagirá no próximo sonho, e assim a interpretação pode ser corrigida. Se for dado arsênico a um paciente em vez de cloreto de sódio, o organismo reagirá e eliminará o veneno, e é o mesmo na psicologia; não se pode alimentar uma pessoa com veneno psíquico e esperar que ele seja assimilado.
47 O sonho com o qual estamos lidando agora é bem mais complicado do que aquele que eu acabei de lhes fornecer. Nosso sonhador não é realmente neurótico; é um homem educado e muito inteligente, e seus sonhos refletem isto. Os sonhos dos camponeses, pessoas jovens ou simples, ou primitivos, são via de regra espantosamente simples. No entanto, os sonhos de crianças pequenas são algumas vezes muito claros, e algumas vezes muito difíceis; quanto mais inconscientes são as crianças, tanto mais estão sob a influência do inconsciente coletivo, ou podem absorver os problemas inconscientes de seus pais. Eu tive grande dificuldade com um paciente homem que nunca sonhava, mas um dia ele mencionou os sonhos de seu filho de nove anos de idade. Prontamente eu perguntei a respeito deles. O garoto sonhou os problemas de seu pai, e eu analisei o pai através dos sonhos do menino; o garoto era incomumente intuitivo. Após quatro semanas o pai começou a ter seus próprios sonhos, e os sonhos do menino deixaram de se referir aos problemas do pai. Estas conexões entre pais e filhos são muito espantosas; os sonhos das crianças pertencem ao fenômeno mais interessante da psicologia analítica.
48 A grande sala na qual nosso paciente e seu cunhado iam comer era como um village hall[6] em uma estalagem, como aqueles em que os Vereins [associados de clubes] se encontram na Suíça. Pode-se encontrar com freqüência, especialmente nos villages, um salão para concertos, etc., onde numerosos encontros são mantidos, com ou sem senhoras, com ou sem cerveja, etc. Em duas ocasiões oficiais o paciente lembra de haver participado desse tipo de encontros em uma sala como esta.
49 A longa mesa de jantar no meio da sala foi arrumada como se fosse para um grande número de pessoas. Ele então descobre o arranjo peculiar dos assentos, surgindo nos quatro lados como num anfiteatro, mas com suas costas voltadas para a mesa. Mas antes de entrar neste ponto devemos ter uma certa idéia a respeito da grande sala. Como podemos conectar a grande sala com um teatro?
50 Sugestão: Era seu teatro privado, onde ele veria seu próprio drama interno representado.
51 Dr. Jung: Sim, e então vem o jantar - ele pensa que já comeu, e contudo vai jantar novamente. Da última vez fizemos a suposição de que "comer" significava a assimilação dos complexos. Por aproximadamente vinte e cinco anos eu analisei cerca de dois mil sonhos ou mais a cada ano, e desta experiência eu diria que, mais provavelmente, o ato de comer em conexão com o teatro significa a assimilação das imagens vistas no teatro privado, ou seja, o material fantasioso ou outro material revelado através da instrospecção. Esta é uma atividade de suma importância e é o propósito do tratamento analítico. É também exatamente o que a natureza faz no corpo físico. Se você tem um corpo estranho em si, a natureza manda um exército de células especiais para assimilá-lo; se elas não têm sucesso em absorvê-lo, há então a supuração para fazer a expulsão. As leis são as mesmas na mente inconsciente.
52 Provavelmente na realidade absoluta não há uma tal coisa como corpo e mente, mas corpo e mente ou alma são o mesmo, a mesma vida, sujeitos às mesmas leis, e o que o corpo faz está acontecendo na mente. Os conteúdos de um inconsciente neurótico são corpos estranhos, não assimilados, artificialmente cindidos[7], e devem ser integrados de modo a se tornarem normais. Suponhamos que algo muito desagradável tenha me acontecido e eu não o admito, talvez uma mentira terrível. Eu tenho que admiti-la. A mentira está lá objetivamente, seja no consciente ou no inconsciente. Se eu não admitir isto, se eu não o assimilei, isto se torna um corpo estranho e formará um abcesso no inconsciente, e o mesmo processo de supuração do corpo começa, psicologicamente, assim como tem lugar no corpo físico. Eu terei sonhos, ou, se introspectivo, uma fantasia vendo a mim mesmo como criminoso. O que farei com estes sonhos ou fantasias? Pode-se rejeitá-los, como o fariseu, e dizer "graças aos céus, eu não sou assim". Há um fariseu assim em cada um de nós que não quer ver o que ele é. Mas se eu reprimir minhas fantasias acerca disso, elas formarão um novo foco de infecção, assim como uma substância estranha pode causar um abcesso em meu corpo. Quando é razoável eu tenho que admitir a mentira, engoli-la. Se eu admiti-la, assimilo aquele fato, adiciono-o à minha constituição mental e psicológica; eu normalizo[8] minha constituição inconsciente assimilando fatos. O sonho é uma tentativa de nos fazer assimilar coisas ainda não digeridas. É uma tentativa de cura.
53 Os primitivos dizem que raramente sonham. Quando estive na África, estava muito ansioso em obter alguns sonhos dos homens das tribos, e lhes oferecia altos preços, dois maços de cigarro, sal, etc., por cada sonho que me trouxessem, mas eles eram tão honestos que nenhum trouxe um sonho, embora muitos viessem diariamente me observar. Um dia um velho chefe apareceu, muito orgulhoso e exaltado, acenando seu chapéu a duzentos metros de distância e fazendo sinais, desde longe, de que estava trazendo um sonho, um tesouro: "Eu sonhei que a vaca preta teve um bezerro perto do rio, num lugar que não conheço". Para um primitivo, ter um tal sonho significa que ele foi abençoado pelos céus. Esta era Ota, a grande visão, e o homem precisa ser um grande chefe para ser apreciado pelos céus em tal extensão. O sonhador era um idoso bastante rico, e escravos cuidavam de seu gado, de modo que ele não sabia como andavam as coisas. Eles são um povo amante do gado, vacas são seus animais sagrados[9] e, como os suíços, eles são identificados com seu gado; eles têm em seus olhos a mesma coisa que os Suíços. Ele sabia que tinha uma bela vaca preta mas não sabia que ela estava com um bezerro; no entanto, após o sonho ele desceu até o rio pela manhã e lá estava a vaca com o bezerro dela. Isso era um pouco de telepatia? Ele tinha visto a vaca uma vez quando prenha e se tornara consciente de sua condição? Ele negou ter percebido isto. Nesta tribo não havia castração, nada de bois, os touros estavam sempre com o rebanho; touros muito bonitos, bestas amáveis, mansos, tímidos, quase covardes, não como nossos touros; assim, não havia época para crias, nenhum controle, uma vaca podia engravidar a qualquer tempo, e era bastante razoável que ele não soubesse daquela. Mas o sonho o informou. Por que ele deveria assimilar uma tal coisa? Para os criadores de gado, o nascimento de um bezerro é mais importante que o nascimento de uma criança. Eu morei no campo, e quando um camponês tinha um bezerro todos o congratulavam, embora não quando tinha uma criança. Portanto, este evento muito importante, estando em seu inconsciente, foi revelado a ele através de um sonho, e sua adaptação foi posta à prova, pois ele devia manter-se mais informado a respeito de seu gado. O curandeiro costumava sonhar a respeito de aonde o gado tinha ido, quando o inimigo estava chegando, etc., e, se nós vivêssemos sob condições primitivas, assim seria conosco. Assim sendo, somos informados por nossos sonhos sobre todas as coisas que vão mal em nossa psicologia, em nosso mundo subjetivo, as coisas que devíamos saber sobre nós mesmos.
54 Estou entrando em detalhes para a interpretação do sonho de nosso paciente porque é extremamente importante desenvolvê-la passo a passo, indo de fato a fato: porque ele foi ao teatro, porque ele comeu, assim e assado aconteceu. Portanto, a seqüência irracional deve ser compreendida como uma seqüência causal. Nós vimos a conexão entre a grande sala, o ato de comer e o teatro; temos os assentos do anfiteatro na grande sala, como no teatro; ambos são lugares públicos, a mesa está arrumada; fomos informados de que ele foi ao teatro e a certo lugar para jantar, de modo que podemos estar perfeitamente seguros de que esta parte do sonho pertence ao mesmo tema.
55 Agora chegamos a estes assentos que estão virados de costas para a mesa. Ele disse: "Nós tínhamos que subir uma escada que começava na porta, como se subíssemos a uma espécie de tribunal, e da escada tivemos acesso a fileiras de bancos voltadas para as paredes da sala. Eu vi como as pessoas estavam sentando nesses assentos e percebi que não havia ninguém perto da mesa no meio da sala; o jantar não ia começar ainda, aparentemente". Ele lembrava ter visto uma sala como aquela em uma cidade algeriana, onde estiveram jogando jeu de paume[10], um tipo de pelota basque[11], como o velho tênis inglês. Aquela sala também sugeria um anfiteatro, mas os assentos estavam arranjados ao longo de apenas dois lados da sala, chegando quase ao meio, mas deixando um espaço aberto para o jogo. Neste jogo uma bola é jogada contra uma parede com tremenda força, de modo que o braço fica inchado até o ombro. É algo como o inglês "fives", o precursor do tênis inglês. Ele também fez uma associação com uma clínica, onde havia assentos de anfiteatro no salão de conferências. Ele havia visto uma figura de uma sala destas, e na realidade estivera em uma onde um professor demonstrou em um quadro negro uma operação que era para ser feita em sua esposa.
56 Lembrem-se que uma sala de jantar é um lugar onde as coisas devem ser assimiladas; mas a refeição ainda não começou, e parece ser significado que ela não deve começar ainda. Eu enfatizaria que essa sala de jantar é um local público. Por que o sonho enfatiza a coletividade na qual a assimilação das imagens deve tomar posição? O sonho diz: "Assuma que você está em um lugar público onde estão outras pessoas, como num concerto, teatro ou jogo de bola, e você tem que fazer 'como tantas outras pessoas', numa tarefa coletiva, de modo algum individual; aqui estão os fantasmas de seus sonhos, e é muito difícil ter que engolir que você é um covarde, um cão preguiçoso, etc". Para o paciente, isto parece ser uma tarefa quase impossível. Ele a toma com tanta hesitação, com tão pouco apetite, porque assume que é o único indivíduo desde o início do mundo que tem que fazer isto. É verdade que a análise é uma coisa individual; a parte coletiva é confissão; assim como na Igreja Católica Romana, a confissão é coletiva, e a confissão analítica é algo particularmente desagradável. Católicos me contaram em análise que não contam tudo ao padre. Eu uma vez disse a um tal paciente: "Vá e diga isso ao padre!" "Será que ele ficará chateado?" "Eu espero que ele fique; vá e faça isso". Estes pacientes se tornam católicos muito melhores depois da análise; eu freqüentemente tenho ensinado a pacientes católicos como confessar. Uma vez um sacerdote, alta autoridade na Igreja Católica, perguntou a um de meus pacientes: "Mas onde você aprendeu a confessar assim?" - e ficou um pouco chocado ao ser informado.
57 Então o sonho diz ao homem: "Esta coisa que você está fazendo é uma tarefa coletiva; você pensa que a está fazendo privativamente no consultório, mas muitas outras pessoas estão fazendo a mesma coisa". A análise é análoga à confissão, e a confissão tem sido sempre coletiva e deve ser coletiva; não é feita para alguém em si, sozinho, mas para o bem da coletividade, por um propósito social. A consciência social de alguém está com problemas e força-o a confessar; através de pecado e segredo alguém é excluído, e quando confessa é incluído novamente. Esta sociedade humana será novamente construída, depois do encerramento da era protestante, sobre a idéia da universalmente reconhecida verdade. A idéia da confissão sendo um dever coletivo é uma tentativa do inconsciente para criar a base de uma nova coletividade. Ela não existe agora.
58 Esta, vocês podem dizer, é uma conclusão muito difícil de alcançar, mas para este homem ela vai direto ao ponto. Ele é muito consciencioso e percebe dolorosamente o quanto as pessoas hoje estão separadas umas das outras; ele está separado de sua esposa, ele não pode falar com ela, e ocorre o mesmo em relação a seus amigos, porque ele não pode discutir seus interesses reais. Isto é perfeitamente tolo, uma aglomeração irracional de bobagens! Em circunstâncias primitivas pode-se discutir qualquer coisa, qualquer coisa pode ser dita a qualquer um. Quando um homem diz que sua esposa dormiu com outro homem, isto é nada - toda esposa tem feito isso. Ou se uma mulher diz que seu homem fugiu com uma garota de outra vila, isso é nada - todos sabem que todo homem tem feito isso. Estas pessoas não excluem umas às outras pelo segredo, elas conhecem-se umas às outras e assim conhecem a si mesmas, estão vivendo em uma corrente coletiva. O que mais ocorre na vida com uma tribo primitiva é esse sentimento de estar na corrente da vida coletiva; se um homem é sagaz, ele se dissocia até de si mesmo, de modo a não estar separado da tribo[12]; a tribo inteira é realmente uma unidade. Sente-se que nossas cidades são um mero conglomerado de grupos, cada homem tem seu próprio círculo, e não se aventura a revelar-se mesmo a este, ele procura esconder até de si mesmo. E é tudo uma questão de ilusão. Os assim chamados amigos íntimos não conhecem as coisas mais importantes uns a respeito dos outros. Um paciente homossexual disse-me quantos amigos ele tinha. "Você é muito afortunado em ter tantos amigos íntimos!" Ele se corrigiu: "Tenho cerca de cinco amigos íntimos". "Eu suponho que você é homossexual com seus amigos íntimos". Ele ficou chocado com a idéia, ele esconde isso deles. Este esconder dos amigos destrói a sociedade; o segredo é anti-social, destrutivo, um câncer em nossa sociedade. O paciente sofre particularmente do fato que ele não pode contar a verdade, e o sonho diz que esta é uma tarefa coletiva.
59 Por que agora este jogo de bola? Uma mesa seria o lugar onde as refeições acontecem, e os assentos serviriam às pessoas que estão participando daquela refeição coletiva - realmente uma mesa de comunhão psicológica. A raiz psicológica da comunhão, e a preliminar necessária, é sempre a confissão; nós precisamos confessar antes de sermos dignos de receber comunhão. O comando apostólico: "confessem suas faltas, uns aos outros"[13] foi dado nos primórdios da Igreja de modo a estabelecer irmandade. Então por que estes assentos estão voltados de costas para a mesa? Isto obviamente significa algo muito anormal, muito fortemente colocado; qualquer fato absurdo que é muito enfatizado em um sonho refere-se a algo quase patológico. Para interpretar isto, temos que nos colocar na posição dada pelo sonho. Suponham que vocês entraram naquela sala onde a comunhão deveria tomar lugar e encontraram os assentos de costas para aquela coisa central na sala; o que isto significaria? Que vocês estão recusando entrar na comunhão, é claro. Se cada um tornar suas costas aos seus semelhantes, o jogo não pode ser jogado, nenhuma comunhão é possível, não há interesse concêntrico na coisa que está acontecendo, há uma espécie de excomunhão; cada um olha para a parede, distante das outras pessoas, e assim todos são excomungados, todos estão isolados. Este é um sonho muito pessoal, no qual entram considerações sociais; nada há de mitológico nisto, não é um sonho a partir do inconsciente coletivo. O sonho diz: "O que você está fazendo em seu sigilo é aquilo que todos os outros estão fazendo, todos estão voltando suas costas para seus semelhantes".
60 O centro de um grupo social é sempre um símbolo religioso. Com os primitivos, é o totem; a seguir vem um símbolo sacrificial, como a matança mitraica do touro; em formas mais elevadas de religião está o sacramento. O centro da atividade social sob condições muito primitivas é o cerimonial dançante ou mágico em um círculo no meio das cabanas. Provavelmente estes antigos círculos de pedra ainda encontrados na Cornualha foram uns tais lugares comunitários. E estava entendido que quando as pessoas se reuniam as almas ancestrais estavam lá também, observando-as; não apenas seu consciente estava em comunhão, mas seus ancestrais, o inconsciente coletivo. O cerimonial era um jogo simbólico. As touradas no culto de Mitra não eram como agora são na Espanha; os outros tinham um cinto ao redor do peito, e o toureiro tinha que pular nas costas do touro, apunhalando-o de cima no ombro - não com uma longa espada. Supunha-se ser Mitra um tal toureiro, como um Jesus do ringue de boxe ou de uma partida de futebol. Estes jogos eram comunhões, as pessoas voltavam suas faces umas para as outras. Touradas ainda são o símbolo, na Espanha, de comportar-se decentemente por meio da pura violência contra alguém; o temperamento espanhol não permitiria o comportamento decente se eles não tivessem touradas; eles precisam ter a atitude do toureiro: as paixões precisam ser controladas vivendo-as como o toureiro controla o touro.
61 O mitraísmo era o culto das legiões romanas por causa de sua disciplina. Em Roma, eles se encontravam em cavernas; havia um lugar para encontros e jantares, uma espécie de triclinium, com duas fileiras paralelas de bancos, e no final da sala um quadro simbólico de Mitra matando o touro; o quadro foi feito para girar e mostrar, do outro lado, a nova vida brotando do touro morto, gado dos genitais, vinho do sangue, etc., toda a fertilidade da terra[14]. As pessoas reclinavam nos sofás onde o quadro podia ser visto, e o espaço central era aberto. Era um tipo de teatro e sala de jantar onde elas comungavam com o deus por meio da refeição sagrada: "Assim como o deus está matando o touro, eu estou matando minhas próprias paixões". A água era bebida e pequenos pedaços de pão, com uma cruz marcada neles, eram comidos. Os sinos usados na missa católica romana vieram do culto a Mitra; também a data, vinte e cinco de dezembro, foi assumida pelo cristianismo. O matador de touros é um herói adequado para o soldado; os jesuítas são soldados da Igreja neste sentido, e o Exército da Salvação usa esta forma; pois um soldado, para ter disciplina, precisa matar suas próprias paixões egoístas. Muitas outras coisas do culto mitráico entraram na Igreja Católica. Os banquetes de amor cristãos originais foram, algumas vezes, de uma natureza um tanto duvidosa, freqüentemente terminando em folia. São Paulo não estava muito satisfeito a respeito e tomou conta de uma boa parte do culto de Mitra com propósitos de disciplina, porque nada mais estava disponível. Assim, a primeira forma ritual foi o sacrifício do "cordeiro", - não mais a tourada - a festa sagrada que tornou-se a missa católica.
62 A idéia de um jogo ritual sobreviveu até cerca do século XIII. Eles realmente costumavam jogar bola nas igrejas, o jeu de paume, e isto deu ascensão ao rumor de que os cristãos mataram uma criança ao atirá-la de um para outro como uma bola até que ela morreu. Os gnósticos acusaram os cristãos disto, e os cristãos por sua vez acusaram os judeus. Havia um rumor na Boêmia há apenas trinta anos, de que os judeus haviam matado uma criança, um assassinato ritual. O jeu de paume tinha um significado ritual, tal qual o carnaval. Nos monastérios, durante o carnaval de primavera, eles costumavam reverter as posições do abade e dos irmãos mais jovens ordenados; o irmão mais jovem ordenado se tornava o abade, e vice-versa. Havia também uma festa na qual eles trocavam lugares, o abade e os monges mais velhos servindo os irmãos mais jovens, e uma falsa missa era celebrada, o mais jovem irmão ordenado oficiando, na qual as canções e brincadeiras eram obscenas, e todos bebiam o vinho, não apenas o celebrante; então, ébrias orgias tomavam lugar, e todos corriam para fora da igreja, indo à rua, e chateavam todo o local. Estas festas e o jeu de paume foram finalizadas pelo papa no século XIII porque chegavam a tais extremos[15]. As publicações históricas são extremamente importantes, mas nas publicações eclesiásticas muito é escondido; tem havido muita trapaça em assuntos religiosos, muitas mentiras e muitas omissões. O velho culto fálico, por exemplo, tomado a partir do paganismo nos primórdios da Igreja Cristã, nunca é mencionado; um remanescente dele aparece em uma das formas da cruz, mas as pessoas desviam seus olhos disso[16]. Procurar-se-ia em vão um fato como este nas publicações eclesiásticas.
63 O jogo central simbólico é, então, historicamente verdadeiro. Este sonho dificilmente toca o inconsciente coletivo, exceto que aqui talvez esteja uma leve alusão àquilo que uma vez foi um fato histórico. Mead tinha um texto sobre jogos eclesiásticos em um volume prematuro do The Quest. Ele também publicou um texto chamado "The Sacred Dance of Jesus"[17], uma idéia perfeitamente impossível do ponto de vista cristão, que no entanto pertence aos primeiros séculos; e um pequeno livro chamado The Hymn of Jesus, uma peça de dança e paixão de um documento gnóstico do segundo século.
64 Voltar as costas para a mesa de jantar significa a atitude anti-social de nosso tempo e nossa sociedade, como a cisão de nosso mundo protestante. A igreja que uma vez foi universal agora está dividida em mais de quatrocentas seitas, dissociações ad infinitum. E isso alcançou a sociedade tão completamente que agora todos pertencemos às "pessoas que voltam suas costas umas às outras". Assim, o simbolismo no sonho faz voltar ao problema pelo qual o paciente é perturbado. Para a sociedade como uma coisa abstrata eu não ligo a mínima, mas estou conectado com a sociedade através dos representantes da sociedade, aqueles mais próximos de mim, começando por minha própria esposa, filhos, parentes e amigos, as pontes que me conectam à sociedade. Eu estou desconectado da sociedade quando estou desconectado daqueles que amo. Isto não pode ser indiferente para mim. Tal é o caso com este homem: ele está parcialmente separado de sua esposa, eles não têm comunhão, nenhum jeu de paume ocorre entre eles.
65 Agora o sonho conduz de volta àquele problema muito pessoal. "Nós nos sentamos e eu pergunto a meu cunhado por que sua esposa não veio. Enquanto eu pergunto, lembro-me ao mesmo tempo da razão da ausência dela; eu não esperei por uma resposta porque eu queria mostrar ao meu cunhado que eu não havia esquecido que a criança estava doente". Quanto à doença, ele diz: "Minha esposa nunca é social, nunca sai por prazer se uma das crianças não está perfeitamente bem, ou se ela pensa que as crianças estariam insuficientemente controladas enquanto ela está distante". Como eles haviam vivido tanto em países tropicais onde muito cuidado é requerido para com jovens crianças, criá-las havia sido mais difícil do que se eles tivessem vivido na Suíça. Na África eu mesmo vi a dificuldade em proteger as crianças do perigoso calor do Sol. A criança doente está agora bem melhor, apenas um pouco de febre. Em suas associações com este fato ele refere ao garoto de seu cunhado: "Antes do garoto morrer, eu repetidamente havia perguntado a meu cunhado como estava a criança". Toda esta discussão sobre a esposa de seu cunhado logicamente refere a seu próprio problema pessoal, ao fato de que sua esposa não vem com ele, pois eles não têm comunhão. Ele disse: "Quando uma criança está doente, minha esposa fica sempre terrivelmente perturbada, fora de proporção". A doença da criança é a mais óbvia razão pela qual ele e sua esposa voltam suas costas um ao outro; mas a doença de uma criança real não criaria um obstáculo entre um homem e sua esposa. Já sabemos que aquela ausência de comunhão é um problema social geral que se torna evidente em quase todo casamento. Assim como de fato uma esposa é chamada alhures pela doença de uma criança, assim, tão psicologicamente, ela não se junta a ele por causa da doença da criança no sonho. Agora, desde que a doença da criança acontece durante todo o sonho, precisamos assumir que isto significa mais que uma mera oportunidade para a esposa não estar no jogo. E é importante que a criança doente é uma menina.
66 Sugestão: Vimos anteriormente que a menina-criança era algum aspecto dele mesmo.
67 Dr. Jung: A criança real que morreu era um garoto e não tem efetiva importância aqui. Portanto, se ele sonhasse com um menino, isto expressaria algo nele mesmo. Eu tenho observado em sonhos e em experiências clínicas uma certa tendência no homem para personificar suas idades. Este foi o caso de um médico do campo, no início do século XIX, um homem vivendo uma vida muito árdua, que estava chegando em casa tarde da noite vindo de um caso difícil, caminhando muito cansado, quando tornou-se consciente de uma figura de sombra paralela a ele no meio da estrada. Ele reconheceu a figura como ele mesmo, cerca de dez anos mais novo. Então a visão desapareceu, mas apareceu novamente como ele mesmo, cerca de vinte anos mais novo, e assim por diante até chegar a um menino de oito ou dez anos. Era uma personificação dele mesmo: "O menino ou homem que eu era então, vejo-o ainda como ele era". Assim a alusão ao menino morto é uma alusão à própria juventude morta do paciente. Ele chegou à segunda parte da vida, onde a psicologia de alguém muda: a juventude está morta, a segunda parte está começando. Mas esta é apenas uma alusão; nosso interesse agora está na doença da menina-criança.
[1] Para consideração mais detalhada deste caso e suas conexões com a lenda Egípcia mencionada no parágrafo seguinte, vide "The Structure of the Psyche" (1927), CW 8, parágrafos 303 e seguintes, e "The Tavistock Lectures" (1930), parágrafo 230.
[2] (N. do T.): A citação original em inglês, remontando a Gênesis 3:15, é aquela que se traduz aqui, e é a seguinte: "The serpent shall bruise thy heel while thou art treading upon its head". A Edição Barsa da Bíblia Sagrada de 1967, já relacionada em nota anterior, traz o seguinte texto em Gênesis 3:15: "Eu porei inimizades entre ti, e a mulher; entre a tua posteridade e a dela. Ela te pisará a cabeça e tu procurarás mordê-la no calcanhar". No texto em português desta versão da Bíblia, Deus fala dirigindo-se à serpente e não à mulher, como acontece na citação de Jung de acordo com o original em inglês deste seminário.
[3] (N. do T.): Barbara Black Koltuv, em seu O Livro de Lilith (Ed. Cultrix, 1989), discorre sobre a primeira mulher de Adão, que mais tarde tornou-se na serpente que tentou Adão e Eva. Ela cita C. G. Jung a respeito desse tema, remontando ao Visions Seminar, ao CW 13 (Alchemical Studies, par. 399), ao Letters (Vol. I, 1973, pág. 462), e ao Vol. XII das Obras Completas de Jung (Psicologia e Alquimia, fig. 257).
[4] (N. do T.): No texto original em inglês: "bitten by the snake formed out of the earth", (o grifo em itálico é nosso), a expressão em itálico pode levar à tradução literal "formada fora da terra"; contudo, "out of" também tem um sentido de ponto de partida, origem ou causa. Daí a tradução fornecida nesta versão em português.
[5] (N. do T.): O verbo inglês to nurse admite as traduções de cuidar de um doente, amamentar, acalentar. A forma na qual o texto se apresenta é nursing, que também tem o sentido de amamentação.
[6] (N. do T.): Espécie de grande salão, remontando a um salão de uma agremiação.
[7] (N. do T.): O termo aqui traduzido por cindidos (da idéia de cisão) é split-off, que dá uma idéia de rachar separando. É uma espécie de divisão que pode ser comparada ao cisalhamento, que na Física pode ser produzido por instrumentos de corte, como uma guilhotina.
[8] (N. do T.): Em química, o termo normalização tem um significado interessante: normalizar uma solução implica em fazer com que determinada substância se dissolva em um dado solvente até uma quantidade específica que é ideal em determinadas circunstâncias. A solução normalizada é dita, então, solução a X normal. Em outra situação, o ideal pode ser uma solução a Y normal. Em virtude da aproximação de Jung à alquimia, essa analogia pode ser de algum valor.
[9] (N. do T.): A vaca como animal sagrado é um ingrediente presente em muitas culturas. O sagrado Ápis, do Egito Antigo, é citado por Jung em seu Símbolos da Transformação (par. 579, nota 156), Vol. V das Obras Completas de C. G. Jung, a partir de Heródoto, como sendo "um bezerro de uma vaca que não pode mais conceber um fruto de seu ventre". Junito de Souza Brandão, no Vol. I de sua Mitologia Grega (Vozes, 6a. Edição, 1990) menciona o Minotauro e o Rudra do Rig Veda como "portadores de um sêmen abundante que fertiliza abundantemente a terra" (pág. 57).
[10] (N. do T.): Jeu de paume (francês) = Jogo de Péla.
[11] (N. do T.): Pelota basque (francês) = Bola de meia (ou novelo) basca.
[12] (N. do T.): Em virtude da estrutura da língua inglesa (na qual o verbo to be pode significar tanto ser como estar, diferenciando-se o significado, quando muito, apenas pelo contexto), talvez seja preciso notar que este trecho pode ser lido assim: "(...) ser na corrente da vida coletiva; (...) de modo a não ser separado da tribo (...)".
[13] James 5:16. (N. do T.): "Confess your faults, one to another". Este texto é um trecho literalmente igual ao texto contido na Holy Bible dos Gideons, versão autorizada pelo Rei James, na General Epistle of James, 5:16. O apóstolo James é mencionado pela Bíblia da Barsa como sendo Tiago, filho de Alfeu, dito o menor. A citação correspondente está na Epístola Católica de S. Tiago Apóstolo (5:16), em cujo versículo completo consta o seguinte: "Confessai pois os vossos pecados uns aos outros, e orai uns pelos outros, para serdes salvos: porque a oração do justo, sendo fervorosa, pode muito".
[14] Conferir os Símbolos da Transformação, Vol. V das Obras Completas de Jung, Vozes, 1986, parágrafo 354 (como na edição de 1912).
[15] Jung descreveu algumas destas folias em "The Psychology of the Trickster Figure" (1954), CW 9 i, parágrafos 458 e seguintes. (N. do T.): Na data em que esta tradução ocorre, a Vozes ainda não lançou o Vol IX/1 das Obras de Jung, Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo.
[16] Para um exemplo, vide adiante, 6 de novembro de 1929, fig. 12.
[17] G. R. S. Mead, "Ceremonial Game-playing and Dancing in Mediaeval Churches", The Quest (Londres), IV (1912-13), págs. 91-123; "The Sacred Dance of Jesus", The Quest (Londres), II (1910-11), págs. 45-67; The Hymn of Jesus (Echoes from Gnosis, Londres e Benares, IV; 1907). Conferir também "Round Dance" em "Acts of John" (século II), em The Apocryphal New Testment (1924), traduzido por M. R. James para o inglês, págs. 253 e seguintes; e Max Pulver, "Jesus' Round Dance and Crucifixion according to the Acts of John" (1942), The Mysteries (textos da Eranos Yearbooks, 2; 1955), págs. 179-180.

PRIMEIRA PARTE [INVERNO DE 1928, NOVEMBRO E DEZEMBRO] (CONFERÊNCIA I: 7 DE NOVEMBRO DE 1928 )

A análise de sonhos é o problema central do tratamento analítico, porque é o meio técnico mais importante para abrir um caminho para o inconsciente.

O objeto principal deste tratamento, como vocês sabem, é o de perceber a mensagem do inconsciente. O paciente vem ao analista usualmente porque se encontra num impasse ou cul-de-sac[1], onde parece não haver saída, e ele assume que o médico irá saber o caminho. Se o médico é honesto, ele reconhece que também não sabe o caminho. Mas algumas vezes os médicos não o são: há apenas cento e cinqüenta anos atrás, médicos eram estes charlatães que iam às feiras e arrancavam dentes, executavam curas maravilhosas, etc., e esta atitude ainda prevalece em certa extensão na profissão médica, nos dias atuais - os seres humanos são maus, em todo lugar! Em análise devemos ser muito cuidadosos para não assumir que sabemos tudo sobre o paciente ou que sabemos a saída de suas dificuldades. Se o médico diz a ele o que pensa que é o problema, ele segue as sugestões do médico e não experiência por si mesmo. As sugestões podem funcionar por um tempo, mas quando ele está distante o paciente entra em colapso porque não tem contato consigo mesmo e está vivendo não seu próprio caminho, mas o caminho do médico. Ele tem, então, que voltar ao médico para novas sugestões, e logo isto se torna desgostoso a ambos. É importante que o médico admita que não sabe; então ambos estão prontos para aceitar os fatos imparciais da natureza, realidades científicas. Opiniões pessoais são julgamentos mais ou menos arbitrários e podem estar completamente erradas; nunca estamos seguros de estarmos certos. Portanto, devemos pesquisar os fatos fornecidos pelos sonhos. Sonhos são fatos objetivos. Eles não respondem às nossas expectativas, e nós não os inventamos; se alguém pretende sonhar com determinadas coisas, verá que é impossível.
2 Nós sonhamos sobre nossas questões, nossas dificuldades. Existe um dito de que o noivo nunca sonha com a noiva. Isto porque ele a tem na realidade; somente mais tarde, quando existe problema, é que ele sonha com ela - e então ela geralmente já é a esposa. Nós somos bastante incapazes de influenciar nossos sonhos, e o meio externo presente não necessariamente fornece o material do sonho. Mesmo quando algo realmente importante ou fascinante ocorre, com freqüência não existem muitos traços disso em nossos sonhos. Eu fiquei muito desapontado quando estava na África[2]: em toda uma série de sonhos não havia nenhum traço da África apesar das mais impressionantes experiências; nenhum único sonho com cenário africano ou com negros - salvo uma vez, no final do terceiro mês, e então o negro se tornou um barbeiro que, lembrei-me depois, havia cortado meu cabelo em Chattanooga (América)[3].
3 Nossos sonhos são muito peculiarmente independentes de nossa consciência e excepcionalmente valiosos, porque não trapaceiam. Eles são difíceis de ler, assim como os fatos da fisiologia sempre foram difíceis de ler. Da mesma forma que uma técnica séria é requerida para fazer um diagnóstico de coração, fígado, etc., é preciso trabalhar uma técnica séria no sentido de ler os fatos imparciais dos sonhos. Não há dúvida quanto à imparcialidade dos fatos, mas sim com relação à leitura dos fatos; portanto, há um grande número de pontos de vista - o freudiano, por exemplo. Eu não posso discutir os diferentes métodos aqui, mas apenas apresentar o material. Nós tentaremos trabalhar as leituras juntos, e vocês podem conjecturar. Os sonhos mais interessantes são muito excitantes, mas eles são mais fáceis de compreender que os mais simples.
4 Os primitivos acreditam em dois tipos diferentes de sonhos: ota, a grande visão, volumosa, significativa e de importância coletiva; e vudota[4], o pequeno sonho comum. Usualmente, eles negam ter o sonho comum ou, se depois de longos esforços de sua[5] parte, eles admitem uma tal ocorrência, dizem: "Isto não é nada, todo mundo tem isso!". Sonhos grandes e importantes são muito raros, e só um homem realmente grande tem grandes sonhos - chefes, curandeiros, pessoas com mana. Eles disseram que eu também teria uma grande visão porque eu era um grande senhor, e alguém com cem anos de idade, porque eu tinha cabelos brancos e estava apto a ler o grande livro, o Alcorão. Nosso usual preconceito[6] contra os sonhos - de que eles não significam nada - é provavelmente a velha tradição de que os sonhos ordinários não têm nada de relevante. Exploradores dizem que, quando um chefe ou alguém com mana tem um grande sonho, ele sempre chama a aldeia, e todos sentam e escutam, esperam e consideram, e freqüentemente seguem o conselho dado.
5 Talvez os últimos traços de sonhos com tal importância pública possam ser encontrados na época romana. A filha de um senador sonhou que uma deusa apareceu para ela e reprovou-a pelo fato de que seu templo estava decadente em função da negligência; e falou-lhe que ele devia ser reconstruído. Então ela foi ao senado e relatou seu sonho, e os senadores decidiram reconstruir o templo[7].
6 Outro fato ocorreu em Atenas, quando um famoso poeta sonhou que um certo homem havia roubado um vaso precioso de ouro do templo de Hermes, tendo-o escondido em certo lugar. Ele não acreditava em sonhos, e a primeira vez que isso aconteceu ele rejeitou. Mas quando ocorreu uma segunda e uma terceira vez, ele pensou que os deuses estavam insistindo e que devia ser verdade. Ele foi ao Areópago, o equivalente do Senado Romano, e contou seu sonho. Então uma busca foi feita, o ladrão foi encontrado, e o vaso foi recuperado[8].
7 Os primitivos africanos, agora, dependem do inglês para guiá-los, não mais do sonho do feiticeiro. A opinião geral é que o feiticeiro ou o chefe deixaram de ter esses sonhos desde que os ingleses estiveram na região. Eles dizem que o comissariado conhece tudo agora - as fronteiras da guerra, as fronteiras dos campos, quem matou a ovelha, etc. Isso mostra que o sonho tem formalmente uma função social e política, o líder apreendendo seus pensamentos direto do céu, guiando seu povo diretamente de seu inconsciente.
8 Rasmussen soube de um esquimó (filho de uma mulher esquimó e um dinamarquês, que havia vivido com ele na Groenlândia) uma história maravilhosa de um velho feiticeiro que, guiado por um sonho, levou sua tribo da Groenlândia, através da Baía Baffin, para a América do Norte. A tribo havia aumentado rapidamente e houve grande escassez de alimentos, e ele sonhou com um país distante com fartura de peixes, baleias, focas, etc., uma região fértil. A tribo inteira acreditou nele e eles começaram a viagem através do gelo. Na metade do caminho, certos velhos começaram a duvidar, como acontece sempre: a visão está certa ou errada? Então metade da tribo voltou, somente para perecer, enquanto o sonhador continuou com a outra metade e chegou à costa da América do Norte[9].
9 Nossos pequenos sonhos não têm tal importância, nem soluções coletivas ou universais, embora sejam válidos numa situação particular, mas pode-se ver, em sonhos comuns como estes que estou selecionando, a mesma função de guia e a tentativa de solucionar o problema.
10 A pessoa de cujos sonhos vamos falar é um homem de negócios com quarenta e cinco anos, um bom intelecto, culto, próspero, muito educado e sociável, casado, com três ou quatro filhos; não muito neurótico, porém suscetível; seu problema principal é que ele é irritável e particularmente ansioso para evitar situações nas quais se possa reprová-lo ou feri-lo. Ele teve uma dor no estômago e sentiu-se nauseado uma vez, quando a polícia o deteve por excesso de velocidade. Isto mostra que algo não está bem certo. Ele tenta ser terrivelmente correto, e apenas aqueles que têm habilidade ou tendência para serem incorretos tentam ser tão corretos, para atingir a perfeição; quando as pessoas tentam ser anormalmente boas, algo está tentando tornar-se absolutamente errado[10]. Ele é muito correto na superfície - maneiras, discurso, vestimentas, muito cuidadoso em cada possibilidade; não fuma em demasia nem bebe, e tem pontos de vista razoáveis sobre como se deve viver. No entanto, detrás desta superfície virtuosa há algum problema em sua sexualidade; ele tem se tornado mais ou menos afastado de sua mulher, que já não está particularmente interessada nele e está, portanto, frígida. Assim, ele começou a ser atraído por novidades, principalmente por aquilo que chamamos mulheres[11]; ocasionalmente, ele vai a prostitutas de alta classe, e então, para compensar, tenta ser mais e mais correto. Ele não quer enfrentar seu problema, explica isso como um "erro ocasional", arrepende-se e, a cada vez, diz que isso "não acontecerá novamente", como é com a masturbação - até o dia depois de amanhã.
11 Esta é uma maneira imoral de comportar-se diante do problema, e por isso ele nunca se resolve, mas mantém a pessoa sentindo-se, de modo crônico, moralmente inferior. Um estado de mórbida inferioridade, que tem de ser compensado por um excesso de correção, não é bom para ele, nem para sua família, nem para outrem. Isso tem uma influência muito negativa sobre sua mulher; ela é congelada por sua extrema correção, de tal modo que ela não pode ser imprópria de maneira nenhuma, e assim não pode tornar-se consciente de si mesma, punindo-o com a frigidez. Tamanha correção tem um efeito terrivelmente congelante, faz com que alguém se sinta consideravelmente inferior. Se eu encontro alguém tão virtuoso, fico infernizado, não me sinto bem com pessoas muito virtuosas! Este problema o afundava num pântano. Ele tem lido um bom tanto de psicologia e livros sobre sexo, mas ainda tem este problema não-resolvido com o qual se deveria lidar; aí ele veio a mim. Embora não fosse particularmente neurótico, gradativamente as coisas pioravam, e ele pensou que eu podia dizer-lhe o que fazer a respeito. Eu disse que não tinha idéia. Ele ficou chateado: "Pensei que você saberia". Aí eu disse: "Não sei a solução para o seu problema, mas existem sonhos, fatos imparciais, que podem fornecer informação; vamos ver o que eles dizem". Então começamos a analisar os sonhos dele. O primeiro sonho contém todo o seu problema, e uma pista para sua solução.
[1] (N. do T.): cul-de-sac = beco-sem-saída.
[2] Jung dirigiu uma expedição ao Leste da África, do final de 1925 à primavera de 1926, através do Quênia e de Uganda, e descendo o Nilo até o Egito. Vide MDR, capítulo IX, parte iii. (N. do T.): Na edição em português, págs. 224 e seguintes.
[3] Não há registro da estadia de Jung em Chatanooga, Tennessee, embora ele possivelmente tenha parado lá em uma viagem de trem que fez de Nova Orleans a Washington, D.C., em janeiro de 1925. Vide W. McGuire, "Jung in America, 1924-1925", Spring, 1978, págs. 44-45.
[4] A precisão destes termos Swahili pode ser debatida, e podem haver erros de transcrição (ou Jung pode ter ouvido um dialeto). De acordo com o conselho do Programa da Universidade de Yale em Língua Africana, ota é uma forma verbal que significa "sonhar"; a forma vudota não é registrada e pode ser um erro de transcrição para o substantivo ndoto, simplesmente "sonho". (N. do T.): a confusão pode aumentar se nos reportarmos aos verbos "to dream" (traduzido aqui por "sonhar") e ao substantivo "dream" (traduzido aqui por "sonho"). Se recorrermos, por exemplo, à língua espanhola, podemos encontrar, para o sono e para o sonho, a palavra "sueño" (embora isso não aconteça do mesmo modo com a língua inglesa). O Dicionário Escolar Inglês-Português/Português-Inglês de Oswaldo Serpa, 8a. Edição/7a. Tiragem, editado pelo Ministério da Educação e Cultura, Fundação de Assistência ao Estudante, Rio de Janeiro, 1983 (usado para boa parte das traduções que aqui são feitas), coloca na mesma posição, com relação à tradução do termo "dream", os vocábulos "sonho", "imaginação", "quimera", "ilusão", "fantasia". Essas alusões são, talvez, significativas para a percepção do quanto, na cultura ocidental, encontra-se vago o pensamento ordinário a respeito do sonhar e do sonho.
[5] (N. do T.): Sua parte, aqui, é referência a um esforço feito por um no sentido de convencer o outro, e não do esforço do outro por seu próprio convencimento: no texto original, "your part" é referência a você (ou vocês) e não a ele/ela (ou eles/elas).
[6] (N. do T.): Aqui, preconceito é tradução de "prejudice", que também tem uma conotação de prejuízo ou perda.
[7] Vide "The Tavistock Lectures" (1935), CW 18, parágrafo 250. A deusa é Minerva.
[8] Idem nota anterior. O poeta é Sófocles, o templo era o de Héracles, e o sonho está documentado em "Life of Sophocles", século XII, em Sophoclis Fabulae, editado por A. C. Pearson (Oxford, 1924), p. xix.
[9] Knud Rasmussen, Across Arctic America (Nova Iorque, 1927), cap. III: "A Wizard and His Household". Cf. "The Symbolic Life" (1939), CW 18, parág. 674.
[10] (N. do T.): Este trecho está escrito da seguinte forma: "when people try to be abnormally good, something is trying to go absolutely wrong" (pág. 6 no original). A tradução é a mais próxima possível do literal, uma vez que a referência, aqui, é, provavelmente, ao funcionamento do inconsciente no lugar de "something" - algo, ou alguma coisa.
[11] (N. do T.): Expressão original desta oração: "chiefly by what we call women" (pág. 6). Novamente, é caso de uma tradução literal.
Primeiro Sonho[1]

12 "Eu escuto que uma criança de minha irmã caçula está doente, e meu cunhado vem, e me pede para ir com ele ao teatro e a um jantar em seguida. Eu já comi; no entanto, acho que posso ir com ele.
13 "Nós chegamos a uma grande sala, com uma comprida mesa de jantar, ao centro, já arrumada; nos quatro cantos da grande sala há fileiras de bancos ou assentos, como num anfiteatro, mas estão de costas para a mesa - de modo contrário. Sentamo-nos, e pergunto a meu cunhado por que sua esposa não veio. Aí eu penso que é provavelmente porque a criança está doente, e pergunto como ela está. Ele diz que ela está bem melhor, só com um pouco de febre.
14 "Então eu estou na casa de meu cunhado, e vejo a criança, uma menininha com um ou dois anos de idade. (Ele acrescenta: não há uma tal menina na realidade, mas havia um menino de dois anos). A criança parece um pouco doente, e alguém me informa que ela não pronunciaria o nome de minha esposa, Maria. Eu pronuncio este nome e peço à criança que o repita, que diga 'Tia Maria', mas eu realmente digo 'Tia Mari-', e em vez de, meramente, deixar o 'a' de fora, eu digo 'Mari-ah-ah', como que bocejando, apesar dos protestos das pessoas ao meu redor contra aquela maneira de pronunciar o nome de minha esposa".
15 Dr. Jung: Este sonho comum nos introduz à atmosfera do lar do paciente. Todas as particularidades aqui fornecidas são sobre sua família, de onde podemos tirar uma conclusão importante. Qual é?
16 Sugestão: Que o interesse do sonhador estava muito centrado em sua família e nos indivíduos particularmente próximos?
17 Dr. Jung: Sim, e isto está de acordo com a proverbial idéia dos sonhos. Expressamo-nos através da linguagem que é mais facilmente acessível para nós; vemos isto nos sonhos dos camponeses, soldados, etc., que sonham com coisas familiares, a linguagem diferindo de acordo com a profissão. Devo também enfatizar o fato de que este homem tem vivido muito no estrangeiro; ele é um homem do mundo, um grande viajante. Então, por que ele não sonha com este lado de sua existência, cenário, etc.? Os sonhos posteriores não têm nada a ver com seu lar; logo, há uma razão especial para prestar atenção no fato de que ele sonha primeiro em termos familiares.
18 Sugestão: É porque está aí a sede de seu problema?
19 Dr. Jung: Ele está obviamente detido na terminologia de sua família; assim, talvez seu inconsciente tenda a enfatizar o fato de que seu problema está lá. Agora os detalhes.
20 Criança de sua irmã caçula: dois anos atrás sua primeira criança morreu, um belo menino de dois anos. Ele disse: "Participamos muito na dor dos pais durante a doença da criança e em sua morte por disenteria - ele era meu afilhado". A irmã está conectada com o sonhador principalmente através desta perda, e há uma situação semelhante no sonho: a doença da menininha lembra a época em que o garoto estava doente e morreu. É muito importante saber que ele está ligado à irmã através de uma memória emocional de perda; e aqui ele está, de novo, emocionalmente perturbado pela imagem de uma criança de sua irmã, que mais uma vez está doente. Agora ele está ameaçado com uma perda similar, mas esta é psicológica, uma simbólica façon de parler[2], representada por uma menina. A situação, portanto, é muito semelhante, embora na realidade não seja nada dessa espécie, não há doença na família. Se uma criança de sua irmã estivesse realmente doente, poderíamos dizer que o sonho coincidiu com a realidade. Mas não é isso, esta é apenas uma memória visual trazida à tona para construir a imagem da menina. Tal caso imaginário sempre se refere ao sonhador; a memória visual [ou imagem memorizada] deve ser tomada como metáfora.
21 Sua irmã caçula sempre foi seu animalzinho de estimação. Ela é onze anos mais nova, e ele a ama carinhosamente, apesar de ter judiado muito dela quando eram crianças. Aquela irmã é importante porque é o elo com a criança doente, e a criança pertence à psicologia própria dele, estando, portanto, entre ele mesmo e sua irmã caçula, ou seja, próxima de seu coração. Assim, a irmã é simbólica; ela vive no exterior, em um país distante, e ele não tem correspondência com ela atualmente.
22 É mister ser cauteloso ao lidar com tais figuras em um sonho. Se a pessoa é muito chegada ao sonhador e tem importantes relações com ele, deve ser tomada como realidade tangível. Se uma esposa sonha com seu marido como ele realmente é, ela não pode assumir que ele é meramente simbólico. Mas um sonho com uma pessoa desconhecida, ou alguém conhecido há muito tempo, torna-se amplamente simbólico.
23 A irmã menor tem se tornado um tanto indiferente para ele atualmente, e não desempenha nenhum papel na vida presente do sonhador. A teoria freudiana explicaria a irmã como uma substituta para a esposa, mas há algo no sonho que nos permitiria pensar assim?
24 Sugestão: Seria a irmã uma substituta para a esposa por causa do enfraquecimento da afeição dele em ambos os casos?
25 Dr. Jung: Este elemento pode ser considerado. Mas ela é, de todo modo, diferente da esposa, e o sonho não dá pistas para a identidade dela. O aspecto principal da irmã não permite assumir que ela é uma substituta para a esposa, e ela não é a irmã real porque ela não desempenha um papel atual. Portanto, ela representa uma mulher desconhecida, ou um fator feminino de natureza desconhecida nele, que tem uma criança imaginária que está doente, uma mitologia psicológica, pessoal, concluindo em uma atmosfera obscura[3], assim como se estivéssemos ignorantes de todo o sonho. Assim, devemos assumir que isto é simbolismo subjetivo, uma condição peculiar na psicologia dele. Meu método, e cabo a rabo, é não fazer suposições, mas aceitar fatos. Em interpretações arbitrárias qualquer coisa pode ser substituta para qualquer coisa; cuidado com os prejuízos em favorecer a substituição. Não há nenhuma prova de que a irmã represente a esposa, os fatos são precisamente contra isso.
26 Doença da Criança: A primeira criança de sua irmã sofreu de um problema intestinal e morreu disso. É muito importante que, após a morte desta criança, sua irmã tornou-se muito ansiosa, com receio de que o segundo menino pudesse ficar doente, mas ele não adoeceu. Ela ficou particularmente séria e entrou para a Christian Science, e foi como se o garoto estivesse realmente melhor; o homem não sabe se isto foi uma coincidência ou conseqüência do fato de que a irmã estivesse mais calma e tratasse a criança com mais autoconfiança. Se uma mãe é torturada por medos, a criança provavelmente falhará em corresponder às expectativas da mãe. A morte da primeira criança tendo o efeito de fazer sua irmã entrar para a Christian Science é um fato pertinente a ela, mas aqui ele o menciona. A conotação de Christian Science tem também a haver com aquele caráter feminino em sua própria psicologia; é decididamente uma pista. O fator feminino passou por certa conversão, e aquele homem, dentro dos últimos dois a três anos, começou a se interessar por filosofia, ocultismo, teosofia[4], e todo tipo de coisas esquisitas; ele era muito nivelado[5] para ser afetado por isso, embora tivesse um traço místico.
27 Pergunta: Ele teve este sonho depois de começar o trabalho com o senhor?
28 Dr. Jung: Sim, após sua decisão de trabalhar com os sonhos. Quando sua irmã tornou-se interessada na Christian Science, ele foi para o espiritualismo, etc., de modo que o elemento feminino nele o levou a este interesse. Houve uma mudança nele. Ele era um homem de negócios, e toda sua iniciativa estava associada a assuntos de negócios; não obstante, esses interesses infiltraram-se nele; lentamente ele ficou imbuído de idéias filosóficas. Ele não lia como um estudante, não procurava, efetivamente, um objetivo; lia sobre o assunto, isso ou aquilo, algo chamava sua atenção e ele permitia que isto o influenciasse, mergulhando nele - a maneira feminina de dar a um objeto a chance de ter uma influência sobre ele. Ele mostra um caráter inteiramente feminino em seus interesses místicos e filosóficos. Assim sabemos que a criança é uma criança daquele fator feminino nele.
29 Seu cunhado é a segunda figura no sonho. Foram amigos por longo tempo, ele o conhecia antes do casamento com sua irmã; eles estavam no mesmo negócio e iam à ópera juntos, sendo seu cunhado muito musical. Ele disse: "Adquiri toda minha música - não muita - através de meu cunhado, enquanto ele vinha, através de mim, para minha firma de negócios; agora ele tem um cargo de diretor; eu fiquei um tanto desapontado por ele demorar tanto para au fait[6] com o novo negócio, embora ele tenha mais facilidade do que eu para lidar com as pessoas". Eu perguntei se ele ainda tinha conexão com seu cunhado e ele disse que não, ele havia desistido da sociedade de negócio e deixado o país. Assim, efetivamente o cunhado também vive distante, há muito poucas cartas, e ele não desempenha papel notório em sua vida. É tão difícil alegar qualquer realidade com relação ao cunhado quanto é com relação à irmã caçula. Tive a impressão de muito pouca realidade presente sobre ele, embora estivesse em melhores termos com sua esposa do que em seu próprio caso[7].O paciente não é nada artístico; portanto, somos levados a acreditar que o cunhado, através de suas qualidades musicais e de pouco tino para os negócios, simboliza outro lado do sonhador; ele não é tão eficiente quanto o paciente, mas tem algo a mais no lado artístico. A música é o símbolo de uma perspectiva curva para o sonhador; é a arte do sentimento par excellence.
30 Sócrates era um terrível racionalista, insuportável, de modo que seu dáimon[8] lhe disse: "Sócrates, você devia fazer mais música"[9]. E o caro e velho Sócrates comprou uma flauta e tocou coisas horríveis! É claro que o dáimon queria dizer: "Pratique mais o sentimento, não seja tão miseravelmente racional o dia inteiro". Isto poderia ser aplicado ao paciente muito adequadamente. Ele é muito intelectual e seco, e tenta forçar tudo para um esquema racionalista, tenta regular a vida através de linhas precisas, e não permite nada como o sentimento, exceto em um concerto ocasional, porque pessoas respeitáveis e direitas às vezes vão aos concertos ou à ópera. Ele ia, não porque acreditava nisto, mas porque pessoas corretas iam; nenhum amor o levou para lá. Assim eu penso que o cunhado simboliza o lado menos eficiente deste homem, a figura emocional, onírica, que ele é no outro lado. Como ele é um ser humano, ele naturalmente tem todas as tendências em si, como todos temos. Ele acalenta a propositada ilusão de que ele é um mecanismo eficiente e, porque pode andar sobre trilhos em linha reta, ele tem tido considerável sucesso como homem de negócios; ele tem esta vantagem sobre seu cunhado, que é impedido por suas emoções. Nosso paciente pensa que podia livrar-se delas, mas isto é uma ilusão. Ninguém pode desligar os sentimentos humanos sem más conseqüências. Evidentemente ele esconde seus sentimentos, mas então eles se acumulam, e isso causará danos; ou o peso do que quer que se acumule cairá sobre ele, ou explode porão abaixo. Desde que somos humanos, temos todas as funções, e cada função tem sua energia específica que deve ser aplicada ou ela se aplicará de per si.
31 O cunhado, de acordo com sua natureza, convida-o para ir ao teatro e jantar posteriormente. O paciente diz: "Eu não posso me lembrar de ter ido ao teatro com meu cunhado desde seu casamento; se assim foi, estivemos juntos com nossas esposas; sequer jantei com ele, exceto em sua própria casa". Novamente, esta não é uma reminiscência de uma situação efetiva; isto nunca ocorreu na realidade, e é portanto uma intervenção simbólica. O teatro é o lugar da vida irreal, é a vida em forma de imagens, um instituto psicoterapêutico onde os complexos são representados; lá é possível ver como estas coisas funcionam. Os filmes são bem mais eficientes que o teatro; são menos restritos, capazes de produzir símbolos espantosos para mostrar o inconsciente coletivo, já que seus métodos de apresentação são tão ilimitados. Os sonhos expressam certos processos em nosso inconsciente, e enquanto o teatro é relativamente pobre e restrito os sonhos não são, de modo algum, restritos. Assim, ao convidá-lo para o teatro, seu cunhado o convida para a representação de seus complexos - onde todas as imagens são representações simbólicas ou inconscientes de seus próprios complexos.
32 E jantar posteriormente: comer os complexos. Comunhão significa comer um complexo, originalmente um animal sacrificial, o animal-totem, a representação dos instintos básicos daquele clã em particular. Você digere seu inconsciente ou seus ancestrais e assim adiciona força a você mesmo. Comer o animal-totem[10], os instintos, comer as imagens, significa assimilá-las, integrá-las. O que você vê inicialmente na tela lhe interessa, você observa, e aquilo penetra em seu ser, você é aquilo[11]. É um processo de assimilação psicológica. Olhando para a cena, o espectador diz ao ator: "Hodie tibi, cras midi!"[12] Este provérbio latino é a essência da representação[13]. Olhe para as imagens inconscientes e depois de um tempo você as assimila, elas lhe tomam e se tornam parte de você - uma espécie de momento significativo.
33 Santo Agostinho, em suas Confissões, fala de seu amigo Alípio, um cristão convertido, que sentiu que o pior do paganismo não era o culto dos deuses, mas a terrível crueldade e carnificina da arena; assim, ele fez votos que nunca mais iria lá. Mas, passado um dia, viu todas as pessoas afluindo para lá, entrou na onda e foi. Fechou seus olhos e jurou que não os abriria, mas quando o gladiador caiu e ele ouviu as pessoas gritando, ele abriu seus olhos, e dali em diante gritou por sangue junto com a multidão - "naquele momento sua alma foi ferida por um ferimento mais terrível que aquele do gladiador"[14].
34 Não é de todo indiferente que as imagens possuam alguém; não se pode ver algo, como por exemplo o feio, sem ser punido; o aspecto da feiúra traz algo feio à alma, especialmente se o germe já está lá. No começo, não reconhecemos aquilo como nós mesmos. Santo Agostinho escreveu: "Eu vos agradeço, Senhor, que não me fizestes responsável por meus sonhos". Um santo teria sonhos terríveis! Nós somos humanos, qualquer coisa pode nos alcançar, pois alcançamos dos deuses ao inferno. E só então, quando estamos horrorizados, aborrecidos e caóticos, choramos por um Salvador; como no tempo de Cristo, aquilo que era representado diariamente na arena demonstrava a necessidade de um salvador. É um fato interessante que, em vários sistemas gnósticos, a definição de salvador é "o demarcador de limites"[15], aquele que nos dá uma clara idéia de onde começamos e onde terminamos. Muitas pessoas não sabem, são muito pequenas ou muito grandes, particularmente quando começam a assimilar as imagens do inconsciente. É como a história do velho Schopenhauer: absorto, no jardim de gala de Frankfurt, ele caminhou para o meio de uma floreira, e um jardineiro chamou-o: "Ei, o que você está fazendo na floreira? Quem é você?" "Ah, exatamente, se ao menos eu soubesse!", disse Schopenhauer. É por isso que as pessoas preferem uma persona segura[16]: "este sou eu"; caso contrário, elas não sabem quem realmente são. O principal medo do inconsciente é o de esquecermos quem somos.
35 O teatro e o jantar são uma antecipação do processo de análise. No primeiro sonho, as pessoas freqüentemente obtêm a essência de todo o processo a seguir; eu vi este paciente por longo tempo, a intervalos, e foram necessários dezoito meses para que ele compreendesse o que o teatro privado significava. O lado sentimento de sua personalidade, aquele lado dele que não estava nos negócios, estava desligado da vida, não estava nem mesmo em seu casamento. O cunhado é como uma segunda personalidade, que o convida, em seu sonho, para jantarem a sós, sem as mulheres. Aqui chegamos ao significado simbólico das esposas: elas são as emoções, pois é deste modo que o homem usualmente familiariza-se com a mulher. Ele deixar em casa o fator emocional ou não haverá objetividade; ele não pode observar o quadro ou pensar sobre si mesmo quando emocional. Isso tudo é bastante metafórico. Este homem era tão correto, tão sinceramente direito, que se alguém mostrasse a ele o que lhe estava acontecendo realmente ele ficaria horrorizado e não teria objetividade. Ele precisa, primeiro, deixar as emoções e olhar para as imagens de modo muito calmo e objetivo. Eu sempre o deixei longe das emoções, de modo a deixá-lo ver os fatos.
36 Pergunta: E com relação à mulher?
37 Dr. Jung: É bem diferente com as mulheres; as mulheres precisam ter emoções, caso contrário não conseguem ver nada. Uma mulher chora porque está aborrecida, cansada, irada, alegre, qualquer coisa - mas não porque está triste. Suas emoções são sempre por um certo propósito, ela pode trabalhar com suas emoções; se ela admite isto ou não é outro problema. Um homem nunca tem emoções por um propósito; ele não pode ser analisado através de suas emoções; trabalhe com suas emoções e ele fica estúpido; é destrutivo. Já a mulher só pode ser analisada através de suas emoções; ela se torna emotiva de forma muito frutífera; se não se pode chegar às emoções de uma mulher, chega-se a nada, só se pode falar à sua assim chamada mente como se fosse a uma biblioteca, perfeitamente seco. Seu ser real é Eros.
38 Uma voz: Não nos faça sentir inferiores, porque realmente nos sentimos superiores!
39 Dr. Jung: Está certo, emocione-se sobre isso! É difícil lidar com lágrimas na análise; um homem acha excessivamente difícil descobrir como estas armas devem ser usadas; e uma mulher tem o mesmo problema em descobrir como atingir o intelecto dele. Uma mulher não pode tomar Logos puro de um homem; um homem não pode tomar Eros puro de uma mulher.
40 Pergunta: Há algum valor nas emoções de um homem?
41 Dr. Jung: Sim, como matéria-prima, como diamantes não polidos. A emoção de um homem é um produto natural, não há nada proposital nela; mas é genuína e valiosa se puder fazer-se uso dela. Como um sonho, ela acontece. Só é útil quando, através de tremendo autocontrole, ele pode atuar sua emoção quando está frio; então, com esse elemento proposital, ele pode atuar e desempenhar. Mas, afinal, essas não são realmente emoções! Uma mulher trabalha através de suas emoções, com todo talento, como um homem trabalha com sua mente - há sempre um propósito. Já a mente de uma mulher tem toda a inocência e ausência de propósito de um produto natural. Esta é a razão pela qual há tantos demônios poderosos entre as mulheres, como Madame de Maintenon ou Madame de Pompadour. Quando uma femme inspiratrice[17] trabalha com sua mente ela produz no homem a "semente do Logos"[18]. O homem teme numa mulher "o formidável segredo de suas ancas", sua forma de potência criativa. E a mulher teme no homem "o formidável segredo de seu cérebro"; o útero criativo de um homem está em sua cabeça. Uma mulher tem tanto terror daquilo que ela vê na mente de um homem quanto um homem tem da criança produzida. Um homem acha misterioso, perigoso, aterrorizante que ela traga à luz uma criança: ele adere ao amor e algo cresce. Isso toma uma forma cômica no Adam and Eve[19] de Erskine, na terrível ansiedade de Adão sobre uma vaca que deu à luz um bezerro. Por que não algo completamente diferente? E ele se pergunta por que uma mulher deve sempre dar à luz uma criança. Por que apenas um ser humano? Por que não, talvez, um bezerro? O que sai poderia ser qualquer coisa, não se pode ter certeza de nada! É o medo característico de um homem por uma espécie indefinida de efeito.
42 O próximo aspecto no sonho é que ele pensa que já jantou, e portanto é supérfluo jantar novamente. Ele não tem associações, de modo que somos livres para conjeturar. Talvez ele pense que já se assimilou, sente que está completo, um indivíduo perfeito e moderno, sem necessidade de vir a mim nem de assimilar qualquer coisa a mais - alguma resistência contra a análise. Não obstante, ele concorda e vai com seu cunhado. "Não é meu hábito sair à noite, eu prefiro ficar em casa. Deve ser uma condição particular para aquela que me induz a sair, como por exemplo uma peça em que minha mulher esteja interessada, caso no qual, se eu não for, ela vai para a cama mais cedo". Ele aceita o fato de que ele poderia ver mais de si próprio e passar pela análise; ainda assim, ele enfatiza o fato de que não gosta de sair, e sairia somente por algo especialmente interessante ou alguma coisa que interessasse à sua esposa. Esta é sua correção; um homem fora de casa é suspeito, um esposo só deve se interessar por assuntos públicos ou em coisas das quais sua esposa gosta, e nunca ir a lugares ou peças fora do comum. Seu último comentário - que ela vai para a cama mais cedo - abre uma perspectiva. Sua esposa preferiria dormir do que aborrecer-se mortalmente com ele. Noite mais excitante! Por isso é que boceja com resistência interna: Mari - e boceja! Obviamente, esta é a situação em casa: aquela associação com "ah" ao final de "Mari".
[1] (N. do T.): Esse sonho é mencionado por Jung no Vol. XVI de suas obras, A Prática da Psicoterapia, no capítulo IV, Objetivos da Psicoterapia, parágrafos 92 a 94.
[2] (N. do T.): façon de parler = forma de falar.
[3] (N. do T.): A expressão desta oração é "concluding in blue air as much as if we were in ignorance of the whole dream". "Blue air" foi traduzido, aqui, pelo sentido figurado de "blue", que pode indicar melancolia, depressão, tristeza. Pelo restante da frase se deduz o sentido de obscuridade.
[4] (N. do T.): A Teosofia, distinta da Teologia, é uma escola místico-filosófica de fundo oriental que teve maior expressão na primeira metade do século XX. Tem como um de seus expoentes a Sra. Helena Petrovna Blavatsky, autora, entre outras coisas, da Doutrina Secreta (publicada no Brasil em seis volumes pela Editora Pensamento), um tratado em que ela procura expor as origens do homem e do universo, segundo estudos místicos variados, que tomam por principal base os antigos textos védicos.
[5] (N. do T.): A expressão traduzida por nivelado é "level-headed".
[6] (N. do T.): Au fait (francês) = a par.
[7] (N. do T.): Não está muito clara a referência a respeito de com quem se dá a impressão de pouca realidade, mas é possível pensar que o "ele" aqui é referência ao cunhado. O que se segue é possivelmente uma comparação entre o casamento do homem sob análise e o casamento do cunhado deste analisando.
[8] (N. do T.): Também se usa traduzir daemon por daimonion.
[9] Conf. Phaedo, 60e; M.-L. von Franz, "The Dream of Socrates", Spring, 1954; "Foreword to the I Ching (1950)", CW 11, parágrafo 995. [(N. do T.): "Socrates, thou shouldst make more music". No Volume XI (Psicologia da Religião Ocidental e Oriental) das obras de Jung em português, o título é Prefácio ao I Ging, e localiza-se o texto a partir do parágrafo 964, e a menção a Sócrates se faz no parágrafo 994. É preciso notar que a tradução constante do Volume XI da edição em português foi obtida a partir da edição alemã, e segundo o original escrito em 1948 por Jung para a edição inglesa; na edição inglesa, houve participação de Cary F. Baynes para a tradução. Existem diferenças entre a tradução da versão inglesa para o português e da versão do alemão para o português. Para uma comparação entre as traduções deste prefácio para o português, ver o I Ching - O Livro das Mutações, de Richard Wilhelm, Edição Brasileira, publicado pela Editora Pensamento. O texto traduzido na Edição Brasileira do I Ching de Wilhelm foi obtido a partir da Edição Inglesa, Bollingen Series XIX, Princeton, 1972. Uma breve comparação revela diferenças que são, no mínimo, preocupantes.]
[10] (N. do T.): O animal-totem é um animal sagrado.
[11] (N. do T.): Pela estrutura da língua inglesa, esta frase também pode ser lida assim: "você está aquilo".
[12] "Hoje por você, amanhã por mim". Uma inversão do Eclesiástico 38:22, no qual se lê "hodie mihi, cras tibi" ou "Midi heri, et tibi hodie" (Ontem por mim, hoje por ti). (N. do T.): A Edição Barsa da Bíblia Sagrada, Tradução do Padre Antônio Pereira de Figueiredo, 1967, publicada pela Catholic Press, traz essa citação no versículo 38:23 do Eclesiástico, cuja íntegra é a seguinte: "Lembra-te do estreito juízo por onde já passei: porque assim o será também o teu: ontem por mim, e hoje por ti".
[13] (N. do T.): Aqui "acting" foi traduzido como representação. Provavelmente a referência é à ação de representar, em vista da referência imediatamente anterior à peça teatral.
[14] (N. do T.): As Confissões de Santo Agostinho, Livro VI, capítulos 7-8, in Santo Agostinho, Os Pensadores, São Paulo: Nova Cultural, 1987. Para a história de Alípio em maior detalhe, ver Símbolos da Transformação (1952), Vol. V das Obras Completas de C. G. Jung, parágrafo 102, Petrópolis: Vozes, 1986. O editor do texto em inglês original, nesta mesma nota (que é ampliada a partir daquela), faz o comentário de que este parágrafo não é encontrado na edição de 1912. (N. do E.): Sems. "Aloysius" é substituído por "Alipius".
[15] Na Gnose Valentiniana, o poder que impede Sophia, em sua procura pelo Pai, de ser dissolvida pela suavidade do Abismo, e que consolida-a e a traz de volta a si mesma, é chamado Limite (horos). [RFCH] Cf. Hans Jonas, The Gnostic Religion (Boston, 1958), pág. 182, e (N. do T.) Aion - Estudos sobre o Simbolismo do Si-mesmo (1951), Vol. IX/2 das Obras Completas de C. G. Jung, Petrópolis: Vozes, 1988, parágrafo 118, nota 87.
[16] Do latim persona: no drama clássico, a máscara utilizada por um ator para indicar o papel que desempenhava. Na terminologia junguiana, é a face oficial, profissional ou social, que apresentamos ao mundo. Ver Estudos Sobre Psicologia Analítica, Vol. VII das Obras Completas de C. G. Jung, parágrafos 243 e seguintes; e Tipos Psicológicos, Vol. VI das Obras Completas de C. G. Jung, parágrafos 877, 752 e seguintes, ambos editados pela Vozes, e adiante, neste texto [página a indicar, correspondente à tradução da página 74 do original].
[17] (N. do T.): do francês, mulher inspiradora.
[18] (N. do T.): no original a expressão é "seed Logos".
[19] A novela de John Erskine, Adam and Eve: Though He Knew Better (Ïndianápolis, 1927).

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Lição I...

SENHORAS E SENHORES, — Constitui para mim sensação nova e embaraçosa apresentar-me como conferencista ante um auditório de estudiosos do Novo Mundo. Considerando que devo esta honra tão somente ao fato de estar meu nome ligado ao tema da psicanálise, será esse, por conseqüência, o assunto de que lhes falarei, tentando proporcionar-lhes, o mais sinteticamente possível, uma visão de conjunto da história inicial e do ulterior desenvolvimento desse novo processo semiológico e terapêutico.Se algum mérito existe em ter dado vida à psicanálise, a mim não cabe, pois não participei de suas origens. Era ainda estudante e ocupava-me com os meus últimos exames, quando outro médico de Viena, o Dr. Joseph Breuer, empregou pela primeira vez esse método no tratamento de uma jovem histérica (1880-1882). Ocupemo-nos, pois, primeiramente, da história clínica e terapêutica desse caso, a qual se acha minuciosamente descrita nos Studies on Hysteria (Estudos Sobre a Histeria) [1895d] que mais tarde publicamos, o Dr. Breuer e eu.Mas, preliminarmente, uma observação. Vim a saber, aliás com satisfação, que a maioria de meus ouvintes não pertence à classe médica. Não cuidem, porém, que seja necessária uma especial cultura médica para acompanhar minha exposição. Caminharemos por algum tempo ao lado dos médicos, mas logo deles nos apartaremos, para seguir, com o Dr. Breuer, uma rota absolutamente original.A paciente do Dr. Breuer, uma jovem de 21 anos, de altos dotes intelectuais, manifestou, no decurso de sua doença, que durou mais de dois anos, uma série de perturbações físicas e psíquicas mais ou menos graves. Tinha uma paralisia espástica de ambas as extremidades do lado direito, com anestesia, sintoma que se estendia por vezes aos membros do lado oposto; perturbações dos movimentos oculares e várias alterações da visão; dificuldade em manter a cabeça erguida; tosse nervosa intensa; repugnância pelos alimentos e impossibilidade de beber durante várias semanas, apesar de uma sede martirizante; redução da faculdade de expressão verbal, que chegou a impedi-la de falar ou entender a língua materna; e, finalmente, estados de `absence‘ (ausência), de confusão, de delírio e de alteração total da personalidade, aos quais voltaremos mais adiante a nossa atenção.Ao terem notícia de semelhante quadro mórbido, os senhores tenderão, mesmo não sendo médicos, a supor que se trate de uma doença grave, provavelmente do cérebro, com poucas esperanças de cura, e que levará rapidamente o enfermo a um desenlace fatal. Os médicos podem, entretanto, assegurar-lhes que, numa série de casos com fenômenos da mesma gravidade, justifica-se outra opinião muito mais favorável. Quando tal quadro mórbido é encontrado em indivíduo jovem do sexo feminino, cujos órgãos vitais internos (coração, rins etc.) nada revelam de anormal ao exame objetivo, mas que sofreu no entanto violentos abalos emocionais, e quando, em certas minúcias, os sintomas se afastam do comum, já os médicos não consideram o caso tão grave. Afirmam que não se trata de uma afecção cerebral orgânica, mas desse enigmático estado que desde o tempo da medicina grega é denominado histeria e que pode simular todo um conjunto de graves perturbações. Nesses casos não consideram a vida ameaçada e até acham provável o restabelecimento completo. Nem sempre é fácil distinguir a histeria de uma grave doença orgânica. Não nos importa, porém, precisar aqui como se faz um diagnóstico diferencial desse gênero, bastando-nos a certeza de que o caso da paciente de Breuer era daqueles em que nenhum médico experimentado deixaria de fazer o diagnóstico de histeria. Podemos também acrescentar, consoante a história clínica, não só que a afecção lhe apareceu quando estava tratando do pai, que ela adorava e cuja grave doença havia de conduzi-lo à morte, como também que ela, por causa de seus próprios padecimentos, teve de abandonar a cabeceira do enfermo.Até aqui nos tem sido vantajoso caminhar ao lado dos médicos mas breve os deixaremos. Não devem os senhores esperar que o diagnóstico de histeria, em substituição ao de afecção cerebral orgânica grave, possa melhorar consideravelmente para o doente a perspectiva de um auxílio médico. Se a medicina é o mais das vezes impotente em face das lesões cerebrais orgânicas, diante da histeria o médico não sabe, do mesmo modo, o que fazer, tendo de confiar à providencial natureza a maneira e a ocasião em que se há de cumprir seu esperançoso prognóstico.Com o rótulo de histeria pouco se altera, portanto, a situação do doente, enquanto que para o médico tudo se modifica. Pode-se observar que este se comporta para com o histérico de modo completamente diverso que para com o que sofre de uma doença orgânica. Nega-se a conceder ao primeiro o mesmo interesse que dá ao segundo, pois não obstante as aparências, o mal daquele é muito menos grave. Mas acresce outra circunstância: o médico, que, por seus estudos, adquiriu tantos conhecimentos vedados aos leigos, pode formar uma idéia da etiologia das doenças e de suas lesões, como, por exemplo, nos casos de apoplexia ou de tumor cerebral, idéia que até certo ponto deve ser exata, pois lhe permite compreender os pormenores do quadro mórbido. Em face, porém, das particularidades dos fenômenos histéricos, todo o seu saber e todo o seu preparo em anatomia, fisiologia e patologia deixam-no desamparado. Não pode compreender a histeria, diante da qual se sente como um leigo, posição nada agradável a quem tenha em alta estima o próprio saber. Os histéricos ficam, assim, privados de sua simpatia. Ele os considera como transgressores das leis de sua ciência, tal como os crentes consideram os hereges: julga-os capazes de todo mal, acusa-os de exagero e de simulação, e pune-os com lhes retirar seu interesse.O Dr. Breuer não mereceu certamente essa censura com relação à sua paciente. Embora não pretendesse, no princípio, curá-la, não lhe negou, entretanto, interesse e simpatia, o que lhe foi provavelmente facilitado pelas elevadas qualidades de espírito e de caráter da jovem, das quais ele nos dá testemunho na história clínica que redigiu. Sua carinhosa observação proporcionou-lhe bem logo o caminho que lhe permitiu prestar à doente os primeiros auxílios.Havia-se notado que nos estados de `absence‘ (alteração da personalidade acompanhada de confusão), costumava a doente murmurar algumas palavras que pareciam relacionar-se com aquilo que lhe ocupava o pensamento. O médico, que anotara essas palavras, colocou a moça numa espécie de hipnose e repetiu-as, para incitá-la a associar idéias. A paciente entrou, assim, a reproduzir diante do médico as criações psíquicas que a tinham dominado nos estados de `absence‘ e que se haviam traído naquelas palavras isoladas. Eram fantasias profundamente tristes, muitas vezes de poética beleza — devaneios, como podiam ser chamadas — que tomavam habitualmente como ponto de partida a situação de uma jovem à cabeceira do pai doente. Depois de relatar certo número dessas fantasias, sentia-se ela como que aliviada e reconduzida à vida normal. Esse bem-estar durava muitas horas e desaparecia no dia seguinte para dar lugar a nova `absence‘, que cessava do mesmo modo pela revelação das fantasias novamente formadas. É forçoso reconhecer que a alteração psíquica manifestada durante as `absences‘ era conseqüência da excitação proveniente dessas fantasias intensamente afetivas. A própria paciente, que nesse período da moléstia só falava e entendia inglês, deu a esse novo gênero de tratamento o nome de `talking cure’ (cura de conversação) qualificando-o também, por gracejo, de `chimney sweeping’ (limpeza da chaminé).Verificou-se logo, como por acaso, que, limpando-se a mente por esse modo, era possível conseguir alguma coisa mais que o afastamento passageiro das repetidas perturbações psíquicas. Pode-se também fazer desaparecer sintomas quando, na hipnose, a doente recordava, com exteriorização afetiva, a ocasião e o motivo do aparecimento desses sintomas pela primeira vez. `Tinha havido, no verão, uma época de calor intenso e a paciente sofria de sede horrível, pois, sem que pudesse explicar a causa, viu-se, de repente, impossibilitada de beber. Tomava na mão o cobiçado copo de água, mas assim que o tocava com os lábios, repelia-o como hidrófoba. Nesses poucos segundos, ela se achava evidentemente em estado de absence. Para mitigar a sede que a martirizava, vivia somente de frutas, melões etc. Quando isso já durava perto de seis semanas, falou, certa vez, durante a hipnose, a respeito de sua “dama de companhia” inglesa, de quem não gostava, e contou então com demonstrações da maior repugnância que, tendo ido ao quarto dessa senhora, viu, bebendo num copo, o seu cãozinho, um animal nojento. Nada disse, por polidez. Depois de exteriorizar energicamente a cólera retida, pediu de beber, bebeu sem embaraço grande quantidade de água e despertou da hipnose com o copo nos lábios. A perturbação desapareceu definitivamente.Permitam-me que os detenha alguns momentos ante esta experiência. Ninguém, até então, havia removido por tal meio um sintoma histérico nem penetrado tão profundamente na compreensão da sua causa. O descobrimento desses fatos devia ser de ricas conseqüências, se se confirmasse a esperança de que outros sintomas da doente — e talvez a maioria — se houvessem originado do mesmo modo e do mesmo modo pudessem ser suprimidos. Para verificá-los, Breuer não mediu esforços e pesquisou sistematicamente a patogenia de outros sintomas mais graves. E realmente era assim. Quase todos se haviam formado desse modo, como resíduos — como `precipitados’, se quiserem — de experiências emocionais que, por essa razão,foram denominadas posteriormente `traumas psíquicos’; e o caráter particular a cada um desses sintomas se explicava pela relação com a cena traumática que o causara. Eram, segundo a expressão técnica, determinados pelas cenas cujas lembranças representavam resíduos, não havendo já necessidade de considerá-los como produtos arbitrários ou enigmáticos da neurose. Registremos apenas uma complicação que não fora prevista: nem sempre era um único acontecimento que deixava atrás de si os sintomas; para produzir tal efeito uniam-se na maioria dos casos numerosos traumas, às vezes análogos e repetidos. Toda essa cadeia de recordações patogênicas tinha então de ser reproduzida em ordem cronológica e precisamente inversa — as últimas em primeiro lugar e as primeiras por último — sendo completamente impossível chegar ao primeiro trauma, muitas vezes o mais ativo, saltando-se sobre os que ocorreram posteriormente.Os senhores desejam, por certo, que lhes apresente outros exemplos de produção de sintomas histéricos, além do da hidrofobia originada pela repugnância diante do cão que bebia no copo. Para manter-me, porém, no meu programa, devo limitar-me a poucas ilustrações. Assim, relata Breuer que as perturbações visuais da doente remontavam a situações como aquelas em que `estando a paciente com os olhos marejados de lágrimas, junto ao leito do enfermo, perguntou-lhe este, de repente, que horas eram, e, não podendo ela ver distintamente, forçou a vista, aproximando dos olhos o relógio, cujo mostrador lhe pareceu então muito grande — devido à macropsia e ao estrabismo convergente. Ou se esforçou em reprimir as lágrimas para que o enfermo não as visse.’ Todas as impressões patogênicas provinham, aliás, do tempo em que ela se dedicava ao pai doente. `Uma noite velava muito angustiada junto ao doente febricitante e estava em grande ansiedade porque se esperava de Viena um cirurgião para operá-lo. Sua mãe ausentara-se por algum tempo e Anna, sentada à cabeceira do doente, pôs o braço direito sobre o espaldar da cadeira. Caiu em estado de semi-sonho e viu, como se viesse da parede, uma cobra negra que se aproximava do enfermo para mordê-lo. (É muito provável que no campo situado atrás da casa algumas cobras tivessem de fato aparecido, assustando anteriormente a moça e fornecendo agora o material de alucinação.) Ela quis afastar o ofídio, mas estava como que paralisada; o braço direito, que pendia no espaldar, achava-se “adormecido”, insensível e parético, e, quando ela o contemplou, transformaram-se os dedos em cobrinhas cujas cabeças eram caveiras (as unhas). Provavelmente procurou afugentar a cobra com a mão direita paralisada e por isso a anestesia e a paralisia da mesma se associaram com a alucinação da serpente. Quando esta desapareceu, aterrorizada, quis rezar, mas não achou palavras em idioma algum, até que, lembrando-se duma poesia infantil em inglês, pode pensar e rezar nessa língua. Com a reconstituição dessa cena durante a hipnose foi removida a paralisia espástica do braço direito, que existia desde o começo da moléstia, e teve fim o tratamento.Quando, alguns anos mais tarde, comecei a empregar nos meus próprios doentes o método semiótico e terapêutico de Breuer, fiz experiências que concordam com as dele. Numa senhora de cerca de quarenta anos existia um tic (tique) sob a forma de um especial estalar da língua, que se produzia quando a paciente se achava excitada e mesmo sem causa perceptível. Originara-se esse tique em duas ocasiões nas quais, sendo desígnio dela não fazer nenhum rumor, o silêncio foi rompido contra sua vontade justamente por esse estalido. Uma vez, foi quando com grande trabalho conseguira finalmente fazer adormecer seu filhinho doente, e desejava, no íntimo, ficar quieta para o não despertar; outra vez, quando numa viagem de carro com os dois filhos, por ocasião de uma tempestade, assustaram-se os cavalos e ela cuidadosamente quisera evitar qualquer ruído para que os animais não se espantassem ainda mais. Dou esse esse exemplo dentre muitos outros que se acham consignados nos Studies on Hysteria (Estudos Sobre a Histeria).Senhoras e Senhores. Se me permitem uma generalização — inevitável numa exposição tão breve — podemos sintetizar os conhecimentos até agora adquiridos na seguinte fórmula: os histéricos sofrem de reminiscências. Seus sintomas são resíduos e símbolos mnêmicos de experiências especiais (traumáticas). Uma comparação com outros símbolos mnêmicos de gênero diferente talvez nos permita compreender melhor esse simbolismo. Os monumentos com que ornamos nossas cidades são também símbolos dessa ordem. Passeando em Londres, verão, diante de uma das maiores estações da cidade, uma coluna gótica ricamente ornamentada — a Charing Cross. No século XIII, um dos velhos reis plantagenetas, que fez transportar para Westminster os restos mortais de sua querida esposa e rainha Eleanor, erigiu cruzes góticas nos pontos em que havia pousado o esquife. Charing Cross é o último desses monumentos destinados a perpetuar a memória do cortejo fúnebre. Em outro ponto da cidade, não muito distante da London Bridge, verão uma coluna moderna e muito alta, chamada simplesmente `The Monument’, cujo fim é lembrar o grande incêndio que em 1666 irrompeu ali perto e destruiu boa parte da cidade. Tanto quanto se justifique a comparação, esses monumentos são também símbolos mnêmicos como os sintomas histéricos. Mas que diriam do londrino que ainda hoje se detivesse compungido ante o monumento erigido em memória do enterro da rainha Eleanor, em vez de tratar de seus negócios com a pressa exigida pelas modernas condições de trabalho, ou de pensar satisfeito na jovem rainha de seu coração? Ou de outro que, em face do `Monument’ chorasse a incineração da cidade querida, reconstruída depois com tanto brilho? Como esses londrinos pouco práticos, procedem, entretanto, os histéricos e neuróticos: não só recordam acontecimentos dolorosos que se deram há muito tempo, como ainda se prendem a eles emocionalmente; não se desembaraçam do passado e alheiam-se por isso da realidade e do presente. Essa fixação da vida psíquica aos traumas patogênicos é um dos caracteres mais importantes da neurose e dos que têm maior significação prática.Desde já aceito a objeção que provavelmente os senhores formularam refletindo sobre a história da paciente de Breuer. Todos os traumas que influíram na moça datavam do tempo em que ela cuidava do pai doente, e os sintomas que apresentava podem ser considerados como simples sinais mnêmicos da doença e da morte dele. Correspondem, portanto, a uma manifestação de luto, e a fixação à memória do finado, tão pouco tempo depois do traspasse, nada representa de patológico; corresponde antes a um processo emocional normal. Reconheço que na paciente de Breuer a fixação aos traumas nada tem de extraordinário. Mas em outros casos — como no tique por mim tratado, cujos fatores datavam mais de quinze e dez anos —, é muito nítido o caráter da fixação anormal ao passado. A doente de Breuer nos haveria de oferecer oportunidade de apreciar a mesma fixação anormal, se não tivesse sido tratada pelo método catártico tão pouco tempo depois do traumatismo e da eclosão dos sintomas.Até aqui apenas discorremos sobre as relações entre os sintomas histéricos e os fatos da vida da doente, mas dois outros elementos da observação de Breuer podem também indicar-nos como conceber tanto o mecanismo da moléstia como o do restabelecimento.Quanto ao primeiro, é preciso salientar que a doente de Breuer em quase todas as situações teve de subjugar uma poderosa emoção, em vez de permitir sua descarga por sinais apropriados de emoção, palavras ou ações. No trivialíssimo incidente relativo ao cãozinho de sua dama de companhia, por consideração a esta ela não deixou sequer transparecer a sua profunda aversão; velando à cabeceira do pai, estava sempre atenta para que o doente não lhe percebesse a ansiedade e a penosa depressão. Ao reproduzir posteriormente estas mesmas cenas diante do médico, a energia afetiva então inibida manifestava-se intensamente, como se estivera até então represada. Além disso, o sintoma — resíduo desta cena — atingia a máxima intensidade quando durante o tratamento ia-se chegando à sua causa, para desaparecer completamente quando esta se aclarava inteiramente. Por outro lado, pode-se verificar que era inútil recordar a cena diante do médico se, por qualquer razão, isto se dava sem exteriorização afetiva. Era pois a sorte dessas emoções, que podemos imaginar como grandezas variáveis o que regulava tanto a doença como a cura. Tinha-se de admitir que a doença se instalava porque a emoção desenvolvida nas situações patogênicas não podia ter exteriorização normal; e que a essência da moléstia consistia na atual utilização anormal das emoções `enlatadas’. Em parte ficavam estas como carga contínua da vida psíquica e fonte permanente de excitação para a mesma; em parte se desviavam para insólitas inervações e inibições somáticas, que se apresentavam como os sintomas físicos do caso. Para este último mecanismo propusemos o nome de `conversão histérica’. Demais, uma certa parte de nossas excitações psíquicas é conduzida normalmente para a inervação somática, constituindo aquilo que conhecemos por `expressão das emoções’. A conversão histérica exagera então essa parte da descarga de um processo mental catexizado emocionalmente; ela representa uma expressão mais intensa das emoções, conduzida por nova via. Quando uma corrente de água se escoa por dois canais, num deles o líquido se elevará, logo que no outro se interponha um obstáculo. Como vêem, estamos quase chegando a uma teoriapuramente psicológica da histeria, onde assinalamos o primeiro lugar para os processos afetivos.Uma segunda observação de Breuer obriga-nos agora a atribuir grande significação aos estados de consciência para a característica dos fatos mórbidos. A doente de Breuer exibia, ao lado de seu estado normal, vários outros de `absence‘, confusão e alterações do caráter. Em estado normal ela ignorava totalmente as cenas patogênicas ou pelo menos havia rompido a conexão patogênica. Sob hipnose era possível, depois de considerável esforço, trazer tais cenas à memória, e por este trabalho de evocação os sintomas eram removidos. Ficaríamos em grande perplexidade para interpretar esse fato se a experiência do hipnotismo já não nos tivesse indicado o caminho. Pelo estudo dos fenômenos hipnóticos tornou-se habitual a concepção, a princípio estranhável, de que num mesmo indivíduo são possíveis vários agrupamentos mentais que podem ficar mais ou menos independentes entre si, sem que um `nada saiba’ do outro, e que podem se alternar entre si em sua emersão à consciência. Casos destes, também ocasionalmente, aparecem de forma espontânea, sendo então descritos como exemplos de `double consciente‘. Quando nessa divisão da personalidade a consciência fica constantemente ligada a um desses dois estados, chama-se esse o estado mental `conscience‘e o que dela permanece separado o `inconsciente‘. Nos conhecidos fenômenos da chamada `sugestão pós-hipnótica’, em que uma ordem dada durante a hipnose é depois, no estado normal, imperiosamente cumprida, tem-se um esplêndido modelo das influências que o estado inconsciente pode exercer no consciente, modelo esse que permite sem dúvida compreender o que ocorre na manifestação da histeria. Breuer resolveu admitir que os sintomas histéricos apareciam em estados mentais particulares que chamava `hipnóides’. As excitações durante esses estados hipnóides tornam-se facilmente patogênicas porque não encontram neles as condições para a descarga normal do processo de excitação. Origina-se então, do processo de excitação, um produto anormal — o sintoma — que, como corpo estranho, se insinua no estado normal, escapando a este, por isso, o conhecimento da situação patogênica hipnóide. Onde existe um sintoma, existe também uma amnésia, uma lacuna da memória, cujo preenchimento suprime as condições que conduzem à produção do sintoma.Receio que esta parte de minha exposição não lhes pareça muito clara. Os presentes devem, contudo, ser indulgentes; trata-se de concepções novas e difíceis que talvez não possam fazer-se muito mais claras, prova de que nossos conhecimentos ainda não progrediram muito. A teoria de Breuer, dos estados hipnóides, tornou-se aliás embaraçante e supérflua, e foi abandonada pela psicanálise moderna. Mais tarde me ouvirão falar, nem que seja sucintamente, das influências e processos que era mister descobrir atrás das fronteiras dos estados hipnóides, por Breuer fixadas. Hão de ter tido também a impressão, sem dúvida justa, de que a pesquisa de Breuer só lhes pode dar uma teoria muito incompleta e uma explicação insuficiente dos fenômenos observados; porém as teorias completas não caem do céu e com toda a razão desconfiarão se alguém lhes apresentar, logo no início de suas observações, uma teoria sem falhas, otimamente rematada. Tal teoria certamente só poderá ser filha de sua especulação e nunca o fruto da pesquisa imparcial e desprevenida da realidade.Lição IISENHORAS E SENHORES, — Quase ao mesmo tempo em que Breuer praticava a talking cure (cura de conversação) com sua paciente, começava o grande Charcot, em Paris, com as doentes histéricas da Salpêtrière, as investigações de onde havia de surgir nova concepção da enfermidade. Estes resultados não podiam, naquela ocasião, ser conhecidos em Viena. Quando, porém, cerca de dez anos mais tarde, Breuer e eu publicávamos nossa `Preliminary Communication‘ (Comunicação Preliminar) sobre o mecanismo psíquico dos fenômenos histéricos, relacionada com o tratamento catártico da primeira doente de Breuer [1893a], já nos achávamos de todo sob a influência das pesquisas de Charcot. A nosso ver, os acontecimentos patogênicos de nossos doentes, isto é, os traumas psíquicos, eram equivalentes dos traumas físicos cuja influência nas paralisias histéricas fora precisada por Charcot; e a hipótese dos estados hipnóides de Breuer nada mais é que o reflexo da reprodução artificial daquelas paralisias traumáticas, que Charcot obtivera durante a hipnose.O grande observador francês, de quem fui discípulo em 1885 e 1886, não era propenso às concepções psicológicas. Foi seu discípulo Pierre Janet que tentou penetrar mais intimamente os processos psíquicos particulares da histeria, e nós seguimos-lhes o exemplo, tomando a divisão da mente e a dissociação da personalidade como ponto central de nossa teoria. Segundo a de Janet, que leva em grande conta as idéias dominantes na França sobre o papel da hereditariedade e da degeneração, a histeria é uma forma de alteração degenarativa do sistema nervoso, que se manifesta pela fraqueza congênita do poder de síntese psíquica. Os pacientes histéricos seriam, desde o princípio, incapazes de manter como um todo a multiplicidade dos processos mentais, e daí a dissociação psíquica. Se me for permitida uma comparação trivial mais precisa, direi que o paciente histérico de Janet lembra uma pobre mulher que saiu a fazer compras e volta carregada de pacotes. Não podendo só com dois braços e dez dedos conter toda a pilha, cai-lhe primeiro um embrulho; ao inclinar-se para levantá-lo, cai-lhe outro, e assim sucessivamente. Contrariando, porém, esta suposta fraqueza mental dos pacientes histéricos, podem observar-se neles, além dos fenômenos de capacidade diminuída, outros, por assim dizer compensadores, de exaltação parcial da eficiência. Durante o tempo em que a doente de Breuer esquecera a língua materna e outros idiomas exceto o inglês, era tal a facilidade com que falava este último, que chegava a ponto de ser capaz, diante de um livro alemão, de traduzi-lo à primeira vista, perfeita e corretamente.Quando eu, mais tarde, prosseguia sozinho as pesquisas iniciadas por Breuer, fui levado a outro ponto de vista a respeito da dissociação histérica (a divisão da consciência). Era fatal essa divergência, aliás decisiva para o resultado futuro, visto que eu não partia, como Janet, de experiências de laboratório e sim do trabalho terapêutico.O que sobretudo me impelia era a necessidade prática. O procedimento catártico, como Breuer o praticava, exigia previamente a hipnose profunda do doente, pois só no estado hipnótico é que tinha este o conhecimento das ligações patogênicas que em condições normais lhe escapavam. Tornou-se-me logo enfadonho o hipnotismo, como recurso incerto e algo místico; e quando verifiquei que apesar de todos os esforços não conseguia hipnotizar senão parte de meus doentes, decidi abandoná-lo, tornando o procedimento catártico independente dele. Como não podia modificar à vontade o estado psíquico dos doentes, procurei agir mantendo-os em estado normal. Parecia isto a princípio empresa insensata e sem probabilidade de êxito. Tratava-se de fazer o doente contar aquilo que ninguém, nem ele mesmo, sabia. Como esperar consegui-lo? O auxílio me veio da recordação de uma experiência de Bernheim, singularíssima e instrutiva, a que eu assistira em Nancy [em 1889]. Bernheim nos havia então mostrado que as pessoas por ele submetidas ao sonambulismo hipnótico e que nesse estado tinham executado atos diversos, só aparentemente perdiam a lembrança dos fatos ocorridos, sendo possível despertar nelas tal lembrança, mesmo no estado normal. Quando interrogadas a propósito do que havia acontecido durante o sonambulismo, afirmavam de começo nada saber; mas se ele não cedia, insistindo com elas e assegurando-lhes que era possível lembrar, a recordação vinha sempre de novo à consciência.Procedi do mesmo modo com os meus doentes. Quando chegávamos a um ponto em que nos afirmavam nada mais saber, assegurava-lhes que sabiam, que só precisavam dizer, e ia mesmo até afirmar que a recordação exata seria a que lhes apontasse no momento em que lhes pusesse a mão sobre a fronte. Dessa maneira pude, prescindindo do hipnotismo, conseguir que os doentes revelassem tudo quanto fosse preciso para estabelecer os liames existentes entre as cenas patogênicas olvidadas e os seus resíduos — os sintomas. Esse processo era, porém, ao cabo de algum tempo, extenuante, inadequado para uma técnica definitiva.Não o abandonei, contudo, sem tirar, das observações feitas, conclusões decisivas. Vi confirmado, assim, que as recordações esquecidas não se haviam perdido. Jaziam em poder do doente e prontas a ressurgir em associação com os fatos ainda sabidos, mas alguma força as detinha, obrigando-as a permanecer inconscientes. A existência desta força pode ser seguramente admitida, pois sentia-se-lhe a potência quando, em oposição a ela, se intentava trazer à consciência do doente as lembranças inconscientes. A força que mantinha o estado mórbido fazia-se sentir como resistência do enfermo.Nesta idéia de resistência alicercei então minha concepção acerca dos processos psíquicos na histeria. Para o restabelecimento do doente mostrou-se indispensável suprimir estas resistências. Partindo do mecanismo da cura, podia-se formar idéia muito precisa da gênese da doença. As mesmas forças que hoje, como resistência, se opõem a que o esquecido volte à consciência deveriam ser as que antes tinham agido, expulsando da consciência os acidentes patogênicos correspondentes. A esse processo, por mim formulado, dei o nome de`repressão‘ e julguei-o demonstrado pela presença inegável da resistência.Podia-se ainda perguntar, sem dúvida, que força era essa e quais as condições da repressão, em que reconhecemos agora o mecanismo patogênico da histeria. Um exame comparativo das situações patogênicas, conhecidas graças ao tratamento catártico, permitia dar a conveniente resposta. Tratava-se em todos os casos do aparecimento de um desejo violento mas em contraste com os demais desejos do indivíduo e incompatível com as aspirações morais e estéticas da própria personalidade. Produzia-se um rápido conflito e o desfecho desta luta interna era sucumbir à repressão a idéia que aparecia na consciência trazendo em si o desejo inconciliável, sendo a mesma expulsa da consciência e esquecida, juntamente com as respectivas lembranças. Era, portanto, a incompatibilidade entre a idéia e o ego do doente, o motivo da repressão; as aspirações individuais, éticas e outras, eram as forças repressivas. A aceitação do impulso desejoso incompatível ou o prolongamento do conflito teriam despertado intenso desprazer; a repressão evitava o desprazer, revelando-se desse modo um meio de proteção da personalidade psíquica.Dos muitos casos por mim observados quero relatar-lhes um apenas, no qual são patentes os aspectos determinantes e a vantagem da repressão. Para não me afastar do meu propósito, sou forçado a resumir esta história clínica, deixando de lado importantes hipóteses. A paciente era uma jovem que perdera recentemente o pai, depois de tomar parte, carinhosamente, nos cuidados ao enfermo — situação análoga à da doente de Breuer. Nascera, quando a irmã mais velha se casou, uma simpatia particular para o novo cunhado, que se mascarava por disfarce de ternura familiar. Esta irmã adoeceu logo depois e veio a falecer durante a ausência da minha doente e de sua mãe. Estas foram chamadas urgentemente, sem notícia completa do doloroso acontecimento. Quando a moça chegou ao leito da morta, correu-lhe na mente, por um rápido instante, uma idéia mais ou menos assim: `ele agora está livre, pode desposar-me.’ É-nos lícito admitir como certo que esta idéia, denunciando-lhe à consciência o intenso amor que sem o saber tinha ao cunhado, foi logo entregue à repressão pelos próprios sentimentos revoltados. A jovem adoeceu com graves sintomas histéricos e quando comecei a tratá-la tinha esquecido não só aquela cena junto ao leito da irmã, como também o concomitante sofrimento indigno e egoísta. Mas recordou-se de tudo durante o tratamento, reproduziu o incidente patogênico com sinais de intensa emoção, e curou-se.Talvez possa ilustrar o processo de repressão e a necessária relação deste com a resistência, mediante uma comparação grosseira, tirada de nossa própria situação neste recinto. Imaginem que nesta sala e neste auditório, cujo silêncio e cuja atenção eu não saberia louvar suficientemente, se acha no entanto um indivíduo comportando-se de modo inconveniente, perturbando-nos com risotas, conversas e batidas de pé, desviando-me a atenção de minha incumbência. Declaro não poder continuar assim a exposição; diante disso alguns homens vigorosos dentre os presentes se levantam, e após ligeira luta põem o indivíduo fora da porta. Ele está agora `reprimido’ e posso continuar minha exposição. Para que, porém, se não repita o incômodo se o elemento perturbador tentar penetrar novamente na sala, os cavalheiros que me satisfizeram a vontade levam as respectivas cadeiras para perto da porta e, consumada a repressão, se postam como `resistências’. Se traduzirmos agora os dois lugares, sala e vestíbulo, para a psique, como `consciente’ e `inconsciente’, os senhores terão uma imagem mais ou menos perfeita do processo de repressão.Os senhores podem ver desde logo onde está a diferença entre nossa concepção e a de Janet. Não atribuímos a divisão psíquica à incapacidade inata para a síntese da parte do aparelho psíquico, mas explicamo-lo dinamicamente pelo conflito de forças mentais contrárias, reconhecendo nele o resultado de uma luta ativa da parte dos dois agrupamentos psíquicos entre si. De nossa concepção surgem novos problemas, em grande número. Os conflitos psíquicos são excessivamente freqüentes; observa-se com muita regularidade o esforço do eu para se defender de recordações penosas, sem que isso produza a divisão psíquica. É forçoso, portanto, admitir que outras condições são também necessárias para que do conflito resulte a dissociação. Concordo de boa-vontade que com a hipótese da repressão, estamos não no remate, mas antes no limiar de uma teoria psicológica; só passo a passo podemos avançar, esperando que um trabalho posterior mais aprofundado aperfeiçoe os conhecimentos.Os presentes devem abster-se de examinar o caso da doente de Breuer sob o ponto de vista da repressão: essa história clínica não se presta para isso porque foi obtida sob o influxo do hipnotismo. Só prescindido deste último poderão perceber a resistência e a repressão, e formar idéia exata do processo patogênico real. A hipnose encobre a resistência, deixando livre e acessível um determinado setor psíquico, em cujas fronteiras, porém, acumula as resistências, criando para o resto uma barreira intransponível.O que de mais importante nos proporcionou a observação de Breuer foi esclarecer as relações dos sintomas com as experiências patogênicas ou traumas psíquicos, resultado que não devemos deixar de focalizar agora sob o ponto de vista da teoria da repressão. À primeira vista, com efeito, não se percebe como, partindo da repressão, se pode chegar à formação dos sintomas. Em lugar de trazer uma complicada dedução teórica, prefiro retornar à comparação que há pouco nos serviu. Suponhamos que com a expulsão do perturbador e com a guarda à porta não terminou o incidente. Pode muito bem ser que o sujeito, irritado e sem nenhuma consideração, continue a nos dar que fazer. Ele já não está aqui conosco; ficamos livres de sua presença, dos motejos, dos apartes, mas a expulsão foi por assim dizer inútil, pois lá de fora ele dá um espetáculo insuportável, e com berros e murros na porta nos perturba a conferência mais do que antes. Em tais conjunturas poderíamos felicitar-nos se o nosso honrado presidente, Dr. Stanley Hall, quisesse assumir o papel de medianeiro e pacificador. Iria parlamentar com o nosso intratável companheiro e voltaria pedindo-nos que o recebêssemos de novo, garantindo-nos um comportamento conveniente daqui por diante. Graças à autoridade do Dr. Hall, condescendemos em desfazer a repressão, voltando a paz e o sossego. Eis uma representação muito apropriada da missão que cabe ao médico na terapêutica psicanalítica das neuroses.Agora, para dizê-lo sem rebuços: chegamos à convicção, pelo exame dos doentes histéricos e outros neuróticos, de que a repressão das idéias, a que o desejo insuportável está apenso, malogrou. Expeliram-nas da consciência e da lembrança; com isso os pacientes se livraram aparentemente de grande soma de dissabores. Mas o impulso desejoso continua a existir no inconsciente à espreita de oportunidade para se revelar, concebe a formação de um substituto do reprimido, disfarçado e irreconhecível, para lançar à consciência, substituto ao qual logo se liga a mesma sensação de desprazer que se julgava evitada pela repressão. Esta substituição da idéia reprimida — o sintoma — é protegida contra as forças defensivas do ego e em lugar do breve conflito, começa então um sofrimento interminável. No sintoma, a par dos sinais do disfarce, podem reconhecer-se traços de semelhança com a idéia primitivamente reprimida. Pelo tratamento psicanalítico desvenda-se o trajeto ao longo do qual se realizou a substituição, e para a recuperação é necessário que o sintoma seja reconduzido pelo mesmo caminho até a idéia reprimida.Uma vez restituído à atividade mental consciente aquilo que fora reprimido — e isso pressupõe que consideráveis resistências tenham sido desfeitas — o conflito psíquico que desse modo se originara e que o doente quis evitar, alcança, orientado pelo médico, uma solução mais feliz do que a oferecida pela repressão. Há várias dessas soluções para rematar satisfatoriamente conflito e neurose, as quais, em determinados casos, podem combinar-se entre si. Ou a personalidade do doente se convence de que repelira sem razão o desejo e consente em aceitá-lo total ou parcialmente, ou este mesmo desejo é dirigido para um alvo irrepreensível e mais elevado (o que se chama `sublimação’ do desejo), ou, finalmente, reconhece como justa a repulsa. Nesta última hipótese o mecanismo da repressão, automático por isso mesmo insuficiente, é substituído por um julgamento de condenação com a ajuda das mais altas funções mentais do homem — o controle consciente do desejo é atingido.Desculpem-me se porventura não logrei apresentar-lhes mais compreensivelmente estes pontos de vista capitais do método terapêutico hoje denominado `psicanálise’. A dificuldade não está só na novidade do assunto. A natureza dos desejos incompatíveis que, não obstante a repressão, continuam a dar sinal de si no inconsciente, e os elementos determinantes subjetivos e constitucionais que devem estar presentes em qualquer pessoa antes do malogro da repressão podem ocorrer e um substituto ou sintoma ser formado — sobre tudo isto procurarei esclarecer em algumas observações posteriores.Lição IIISENHORAS E SENHORES, — Nem sempre é fácil dizer a verdade, mormente quando é mister ser conciso, e por isso vejo-me obrigado a corrigir uma inexatidão que cometi na última conferência. Dizia-lhes eu que quando, posto de lado o hipnotismo, eu forçava os doentes acomunicarem o que lhes viesse à mente — pois que saibam, apesar de tudo, aquilo que supunham ter esquecido, e a idéia que lhes brotasse havia de certamente conter em si o que se procurava —, pude, com efeito, verificar que o primeiro pensamento surgido trazia o elemento desejado e se revelava como a continuação inadvertida da lembrança. Isto, porém, nem sempre é certo; foi por amor à concisão que o apresentei com essa singeleza. Na realidade, só nas primeiras vezes aconteceu que pela simples pressão de minha parte exatamente o esquecido que buscávamos se apresentasse. Continuando a empregar o método, vinham pensamentos despropositados, que não poderiam ser o procurado e que os próprios doentes repeliam como inexatos. Já não adiantava insistência e poder-se-ia de novo lamentar o abandono do hipnotismo.Neste estado de perplexidade vali-me de um pressuposto cuja exatidão científica foi anos depois demonstrada pelo meu amigo C. G. Jung, de Zurique, e seus discípulos. Devo afirmar que às vezes é muito útil ter um pressuposto. Eu tinha em alto conceito o rigor do determinismo dos processos mentais e não podia crer que uma idéia concebida pelo doente com atenção concentrada fosse inteiramente espontânea, sem nenhuma relação com a representação mental esquecida e por nós procurada. Que não fosse idêntica a esta, explicava-se satisfatoriamente pela situação psicológica suposta. Duas forças antagônicas atuavam no doente; de um lado, o esforço refletido para trazer à consciência o que jazia deslembrado no inconsciente; de outro lado a resistência, já nossa conhecida, impedindo a passagem para o consciente do elemento reprimido ou dos derivados deste. Se fosse igual a zero ou insignificante a resistência, o olvidado se tornaria consciente sem deformação. Podemos admitir que seja tanto maior a deformação do elemento procurado quanto mais forte a resistência que o detiver. O pensamento que no doente vinha em lugar do desejado, tinha origem idêntica à de um sintoma; era uma nova substituição artificial e efêmera do reprimido e tanto menos semelhante a ele quanto maior a deformação que tivesse de sofrer sob a influência da resistência. Ele devia mostrar, porém, certa parecença com o procurado, em virtude da sua natureza de sintoma; e desde que a resistência não fosse muito intensa, seria possível, partindo da idéia, lobrigar o oculto que se buscava. O pensamento devia comportar-se em relação ao elemento reprimido com uma alusão, como uma representação do mesmo por meio de palavras indiretas.Conhecemos, no domínio da vida psíquica normal, exemplos em que situações análogas às que admitimos produzem resultados semelhantes. É o caso do chiste. O problema da técnica psicanalítica forçou-me a estudar o mecanismo da formação das pilhérias. Quero expor-lhes apenas um desses exemplos, aliás uma anedota da língua inglesa.Diz a anedota: Por uma série de empresas duvidosas, dois comerciantes tinham conseguido reunir grandes cabedais e esforçavam-se para penetrar na boa sociedade. Entre outros, pareceu-lhes um meio conveniente fazerem-se retratar pelo pintor mais notável e mais careiro da cidade, cujo quadro fosse um acontecimento. Numa grande reunião foram inaugurados os custosíssimos quadros, um ao lado do outro, e os dois proprietários conduziram até a parede o mais influente crítico de arte a fim de obterem o valioso julgamento. O crítico examinou longamente o quadro, sacudiu a cabeça como se achasse falta de alguma coisa e perguntou apenas, indicando o espaço entre os dois quadros: `But where’s the Saviour? (`Mas onde está o Redentor?’) Vejo que todos se riem da boa pilhéria; penetramos-lhes agora a significação. Os presentes compreendem que o crítico queria dizer: vocês são dois patifes como aqueles que ladearam o Cristo crucificado. Mas não o disse; em lugar disso exprimiu coisa que à primeira vista parece extraordinariamente abstrusa e fora de propósito, mas que logo depois reconhecemos como uma alusão à injúria que lhe estava no íntimo, e que vale perfeitamente como substituto dela. Não podemos esperar que numa anedota sejam encontradas todas as circunstâncias que pressupomos na gênese das idéias associadas dos nossos doentes; queremos todavia realçar a identidade de motivação para a anedota e para a idéia. Por que é que o nosso crítico não lhes falou claramente? Porque nele outras razões contrárias também atuavam ao lado do ímpeto de dizê-lo francamente, face a face. Não deixa de ser perigoso desfeitear pessoas de que somos hóspedes e que dispõem de criadagem numerosa, de pulsos vigorosos. A sorte poderia ser a mesma que na conferência anterior serviu de exemplo para a repressão. Por tal razão o crítico atirou indiretamente a ofensa que estava ruminando, transfigurando-a numa `alusão com desabafo’. É, a nosso ver, devido à mesma constelação que o paciente produz uma idéia de substituição, mais ou menos distorcida, em lugar do elemento esquecido que procuramos.Senhoras e Senhores. Aceitando a proposta da Escola de Zurique (Bleuler, Jung e outros), convém dar o nome de `complexo’ a um grupo de elementos ideacionais interdependentes, catexizados de energia afetiva. Vemos assim que partindo da última recordação que o doente ainda possui, em busca de um complexo reprimido, temos toda a probabilidade de desvendá-lo, desde que o doente nos proporcione um número suficiente de associações livres. Mandamos o doente dizer o que quiser, cônscios de que nada lhe ocorrerá à mente senão aquilo que indiretamente dependa do complexo procurado. Talvez lhes pareça muito fastidioso este processo de descobrir os elementos reprimidos, mas, asseguro-lhes, é o único praticável.No emprego desta técnica o que ainda nos perturba é que com freqüência o doente se detém, afirmando não saber dizer mais nada, que nada mais lhe vem à idéia. Se assim fosse, se o doente tivesse razão, o método ter-se-ia revelado impraticável. Uma observação atenta mostra, contudo, que as idéias livres nunca deixam de aparecer. É que o doente, influenciado pela resistência disfarçada em juízos críticos sobre o valor da idéia, retém-na ou de novo a afasta. Para evitá-la põe-se previamente o doente a par do que pode ocorrer, pedindo-lhe renuncie a qualquer crítica; sem nenhuma seleção deverá expor tudo que lhe vier ao pensamento, mesmo que lhe pareça errôneo, despropositado ou absurdo e, especialmente, se lhe for desagradável a vinda dessas idéias à mente. Pela observância dessa regra garantimo-nos o material que nos conduz ao roteiro do complexo reprimido. Esse material associativo que o doente rejeita como insignificante, quando em vez de estar sob a influência do médico está sob a da resistência, representa para o psicanalista o minério de onde com simples artifício de interpretação há de extrair o metal precioso. Se diante de um doente quiserem os presentes ter um conhecimento rápido e provisório dos complexos reprimidos, sem lhes penetrar na ordem e nas relações, podem dispor da `experiência da associação’, cuja técnica foi aperfeiçoada por Jung (1906) e seus discípulos. Para o psicanalista este método é tão precioso quanto para o químico a análise qualitativa; prescindível na terapêutica dos neuróticos, é indispensável para a demonstração objetiva dos complexos e para o estudo das psicoses, com tanto êxito empreendido pela Escola de Zurique.Não é o estudo das divagações, quando o doente se sujeita à regras psicanalíticas, o único recurso técnico para sondagem do inconsciente. Ao mesmo escopo servem dois outros processos: a interpretação de sonhos e o estudo dos lapsos e atos casuais.Confesso-lhes, prezados ouvintes, que estive longo tempo indeciso sobre se, em lugar desta rápida vista geral sobre todo o domínio da psicanálise, não seria preferível expor-lhes minuciosamente a interpretação de sonhos. Motivo puramente subjetivo e aparentemente secundário me deteve. Pareceu-me quase escandaloso apresentar-me neste país de orientação prática, como `onirócrita’, antes de mostrar-lhes qual a importância a que pode aspirar esta velha e ridicularizada arte. A interpretação de sonhos é na realidade a estrada real para o conhecimento do inconsciente, a base mais segura da psicanálise. É campo onde cada trabalhador pode por si mesmo chegar a adquirir convicção própria, como atingir maiores aperfeiçoamentos. Quando me perguntam como pode uma pessoa fazer-se psicanalista, respondo que é pelo estudo dos próprios sonhos. Os adversários da psicanálise, com muita habilidade, têm até agora evitado estudar de perto A Interpretação de Sonhos, ou têm oposto ao de longe objeções superficialíssimas. Se não repugna aos presentes, ao contrário, aceitar as soluções dos problemas da vida onírica, já não apresentam aos ouvintes dificuldade alguma as novidades trazidas pela psicanálise. Não se esqueçam de que se nossas elaborações oníricas noturnas mostram de um lado a maior semelhança externa e o mais íntimo parentesco com as criações da alienação mental, são, de outro lado, compatíveis com a mais perfeita saúde na vida desperta. Não é nenhum paradoxo afirmar que quem fica admirado ante essas alucinações, delírios ou mudanças de caráter que podemos chamar `normais’, sem procurar explicá-los, não tem a menor probabilidade de compreender, senão como qualquer leigo, as formações anormais dos estados psíquicos patológicos. E entre esses leigos os ouvintes podem contar atualmente, sem receio, quase todos os psiquiatras.Acompanhem-me agora numa rápida excursão pelo campo dos problemas do sonho. Quando acordados, costumamos tratar os sonhos com o mesmo desdém com que os doentes rejeitam as idéias soltas despertadas pelo psicanalista. Desprezamo-los, olvidando-osem geral rápida e completamente. O nosso descaso funda-se no caráter exótico apresentado mesmo pelos sonhos que possuem clareza e nexo, e sobre a evidente absurdez e insensatez dos demais; nossa repulsa explica-se pelas tendências imorais e menos pudicas que se patenteiam em muitos deles. É de todos sabido que a antigüidade não compartilhou tal desapreço para com os sonhos. As camadas baixas do nosso povo, mesmo hoje, não estão totalmente desnorteadas na apreciação do valor dos sonhos, dos quais esperam, como os antigos, a revelação do futuro. Confesso-lhes que não tenho necessidade de nenhuma hipótese mística para preencher as falhas de nossos conhecimentos atuais e por isso nunca pude descobrir nada que confirmasse a natureza profética dos sonhos. Coisa muito diferente disso, embora assaz maravilhosa, se pode dizer a respeito deles.Em primeiro lugar, nem todos os sonhos são estranhos, incompreensíveis e confusos para a pessoa que sonhou. Examinando os sonhos de criancinhas, desde um ano e meio de idade, verificarão que eles são extremamente simples e de fácil explicação. A criancinha sonha sempre com a realização de desejos que o dia anterior lhe trouxe e que ela não satisfez. Não há necessidade de arte divinatória para encontrar solução tão simples; basta saber o que se passou com a criança na véspera (`dia do sonho’). Estaria certamente resolvido, e de modo satisfatório, o enigma do sonho, se o do adulto não fosse nada mais que o da criancinha: realização de desejos trazidos pelo dia do sonho. E o é de fato. As dificuldades que esta solução apresenta removem-se uma a uma, mediante a análise minuciosa dos sonhos.A primeira objeção e a mais importante é a de que os sonhos dos adultos via de regra têm um conteúdo ininteligível, sem nenhuma semelhança com a satisfação de desejos. Resposta: estes sonhos estão distorcidos, o processo psíquico correspondente teria originariamente uma expressão verbal muito diversa. O conteúdo manifesto do sonho, recordado vagamente de manhã e que, não obstante a espontaneidade aparente, se exprime em palavras com esforço, deve ser diferenciado dos pensamentos latentes do sonho que se têm de admitir como existentes no inconsciente. Esta deformação possui mecanismo idêntico ao que já conhecemos desde quando examinamos a gênese dos sintomas histéricos; e é uma prova da participação da mesma interação de forças mentais tanto na formação dos sonhos como na dos sintomas. O conteúdo manifesto do sonho é o substituto deformado para os pensamentos inconscientes do sonho. Esta deformação é obra das forças defensivas do ego, isto é, das resistências que na vigília impedem, de modo geral, a passagem para a consciência, dos desejos reprimidos do inconsciente; enfraquecidas durante o sono, estas resistências ainda são suficientemente fortes para só os tolerar disfarçados. Quem sonha, portanto, reconhece tão mal o sentido de seus sonhos, como o histérico as correlações e a significação de seus sintomas.De que há pensamentos latentes do sonho e que entre eles e o conteúdo manifesto existe de fato o nexo aludido, os presentes se convencerão pela análise de sonhos, cuja técnica se confunde com a da psicanálise. Pondo de lado a aparente conexão dos elementos do sonho manifesto, procurarão os senhores evocar idéias por livre associação, partindo de cada um desses elementos e observando as regras da prática psicanalítica. De posse deste material chegarão aos pensamentos latentes do sonho com a mesma perfeição com que conseguiram surpreender no doente o complexo oculto, por meio das idéias sugeridas pelas associações livres a partir dos sintomas e lembranças. Pelos pensamentos latentes do sonho, descobertos desse modo, pode-se ver sem mais nada como é justo equiparar o sonho dos adultos ao das crianças. O que agora, como verdadeiro sentido do sonho, substitui o seu conteúdo manifesto — e isto é sempre claramente compreensível — liga-se às impressões da véspera e se patenteia como a realização de um desejo não-satisfeito. O sonho manifesto que conhecem no adulto graças à recordação pode então ser descrito como uma realização velada de desejos reprimidos.Podem agora os ouvintes, por uma espécie de trabalho sintético, examinar o processo mediante o qual os pensamentos inconscientes do sonho se disfarçam no conteúdo manifesto. Esse processo, que denominamos `elaboração onírica’, é digno de nosso maior interesse teórico, porque em nenhuma outra circunstância poderíamos estudar melhor do que nele os processos psíquicos, não-suspeitados, que se passam no inconsciente, ou, mais exatamente, entre dois sistemas psíquicos distintos, como consciente e inconsciente. Entre tais processos psíquicos recentemente descobertos ressaltam notavelmente o da condensação e o do deslocamento. A elaboração onírica é um caso especial da influência recíproca de agrupamentos mentais diversos, isto é, o resultado da divisão psíquica, e parece essencialmente idêntico ao trabalho de deformação que transforma em sintomas os complexos cuja repressão fracassou.Pela análise dos sonhos descobrirão os senhores ainda mais, com surpresa, porém do modo mais convincente possível, o papel importantíssimo e nunca imaginado que os fatos e impressões da tenra infância exercem no desenvolvimento do homem. Na vida onírica a criança prolonga, por assim dizer, sua existência no homem, conservando todas as peculiaridades e aspirações, mesmo as que se tornam mais tarde inúteis. Com força irresistível apresentar-se-lhes-ão os processos de desenvolvimento, repressões, sublimações e formações reativas, de onde saiu, da criança com tão diferentes disposições, o chamado homem normal — esteio e em parte vítima da civilização tão penosamente alcançada.Quero ainda fazer notar que pela análise de sonhos também pudemos descobrir que o inconsciente se serve, especialmente para a representação de complexos sexuais, de certo simbolismo, em parte variável individualmente e em parte tipicamente fixo, que parece coincidir com o que conjecturamos por detrás dos nossos mitos e lendas. Não seria impossível que essas últimas criações populares recebessem, portanto, do sonho, a sua explicação.Impende-nos adverti-los finalmente de que não se deixem desorientar pela objeção de que aparecimento de pesadelos contradiz o nosso modo de entender o sonho como satisfação de desejos. Além de que é necessário interpretar os pesadelos antes de sobre eles poder firmar qualquer juízo, pode dizer-se de modo geral que a ansiedade que os acompanha não depende assim tão simplesmente do conteúdo oniríco, como muitos imaginam por ignorar as condições da ansiedade neurótica. A ansiedade é uma das reações do ego contra desejos reprimidos violentos, e daí perfeitamente explicável a presença dela no sonho, quando a elaboração deste se pôs excessivamente a serviço da satisfação daqueles desejos reprimidos.Como vêem, o estudo dos sonhos já estaria em si justificado, pelo fato de que proporciona conclusões sobre coisas de que por outros meios dificilmente chegaríamos a ter noção. Foi todavia no decorrer do tratamento psicanalítico dos neuróticos que chegamos até ele. Pelo que até agora dissemos podem compreender facilmente que a interpretação de sonhos, quando não a estorvam em excesso as resistências do doente, leva ao conhecimento dos desejos ocultos e reprimidos, bem como dos exemplos entretidos por este. Posso agora tratar do terceiro grupo de fenômenos psíquicos cujo estudo se tornou recurso técnico da psicanálise.Os fenômenos em questão são as pequenas falhas comuns aos indivíduos normais e aos neuróticos, fatos aos quais não costumamos ligar importância — o esquecimento de coisas que deviam saber e que às vezes sabem realmente (por exemplo a fuga temporária dos nomes próprios), os lapsos de linguagem, tão freqüentes até mesmo conosco, na escrita ou na leitura em voz alta; atrapalhações no executar qualquer coisa, perda ou quebra de objetos etc., bagatelas de cujo determinismo psicológico de ordinário não se cuida, que passam sem reparo como casualidades, como resultado de distrações, desatenções e outras condições semelhantes. Juntam-se ainda os atos e gestos que as pessoas executam sem perceber e, sobretudo, sem lhes atribuir importância mental, como sejam trautear melodias, brincar com objetos, com partes da roupa ou do próprio corpo etc. Essas coisinhas, os atos falhos, como os sintomáticos e fortuitos, não são assim tão destituídas de valor como por uma espécie de acordo tácito e hábito admitir. São extraordinariamente significativas e quase sempre de interpretação fácil e segura, tendo-se em vista a situação em que ocorrem; verifica-se que mais uma vez exprimem impulsos e intenções que devem ficar ocultos à própria consciência, ou emanam justamente dos desejos reprimidos e dos complexos que, como já sabemos, são criadores dos sintomas e formadores dos sonhos. Fazem jus à mesma consideração que os sintomas, e o seu exame, tanto quanto o dos sonhos, pode levar ao descobrimento da parte oculta da mente. Por elas o homem trai, em regra, os mais íntimos segredos. Se se produzem com grande facilidade e freqüência, até em indivíduos normais, cujos desejos inconscientes estão reprimidos de modo eficaz, isso se explica pela futilidade e inverossimilhança das mesmas. São porém do mais alto valor teórico: testemunham a existência da repressão e da substituição mesmo na saúde perfeita.Notarão desde logo que o psicanalista se distingue pela rigorosa fé no determinismo da vida mental. Para ele não existe nada insignificante, arbitrário ou casual nas manifestações psíquicas. Antevê um motivo suficiente em toda parte onde habitualmente ninguém pensanisso; está até disposto a aceitar causas múltiplas para o mesmo efeito, enquanto nossa necessidade causal, que supomos inata, se satisfaz plenamente com uma única causa psíquica.Se os ouvintes reunirem os meios que estão ao nosso alcance para descobrimento do que na vida mental jaz escondido, deslembrado e reprimido — o estudo das idéias livremente associadas pelos pacientes, seus sonhos, falhas e ações sintomáticas; se ainda juntarem a tudo isso o exame de outros fenômenos surgidos no decurso do tratamento psicanalítico e a respeito dos quais farei algumas observações quando tratar da `transferência’ — chegarão comigo à conclusão de que a nossa técnica já é suficientemente capaz de realizar aquilo que se propôs: conduzir à consciência o material psíquico patogênico, dando fim desse modo aos padecimentos ocasionados pela produção dos sintomas de substituição. O fato de enriquecermos e aprofundarmos durante o tratamento os nossos conhecimentos sobre a vida mental, dos sãos e dos doentes, deve ser considerado apenas como estímulo especial a este trabalho e uma de suas vantagens.Não sei se ficaram com a impressão de que a técnica, através de cujo arsenal os conduzi, apresenta dificuldades especiais. Para mim, ela amolda-se perfeitamente aos seus fins. Mas não é menos certo também que não constitui prenda inata; tem de ser aprendida, como a histológica ou a cirúrgica. Talvez se espantem em saber que na Europa ouvi uma série de juízos relativos à psicanálise expendidos por pessoas jejunas a respeito desta técnica, que elas não exercitam, as quais pessoas ainda por ironia nos exigem lhes demonstremos a exatidão de nossos resultados. No meio de tais opositores encontram-se sem dúvida homens familiarizados com o raciocínio científico em outras matérias, incapazes de contestar, por exemplo, o resultado dum exame microscópico, só porque não o podem confirmar pela inspeção do preparado anatômico com a vista desarmada, e que não emitiriam parecer algum antes de minuciosa observação ao microscópio. Mas no tocante à psicanálise as circunstâncias são realmente desfavoráveis a um imediato assentimento. Quer a psicanálise tornar conscientemente reconhecido aquilo que está reprimido na vida mental, e todo aquele que a julga é homem com as mesmas repressões, mantidas talvez à custa de penosos sacrifícios. Neles devem levantar-se, pois, as mesmas resistências, como nos doentes, e estas se revestem facilmente das roupagens da impugnação intelectual, suscitando argumentos semelhantes aos que desfazemos nos doentes com a regra psicanalítica fundamental. Como nos doentes, podemos reconhecer em nossos adversários notável influxo afetivo na faculdade de julgamento, com prejuízo desta. O orgulho da consciência que chega por exemplo a desprezar os sonhos pertence ao forte aparelhamento disposto em nós de modo geral contra a invasão dos complexos inconscientes. Esta é a razão por que tão dificultoso é como vencer os homens da realidade do inconsciente e dar-lhes a conhecer qualquer novidade em contradição com seu conhecimento consciente.Lição IVSENHORAS E SENHORES, — Desejam os ouvintes saber agora o que, com auxílio dos meios técnicos descritos, logramos averiguar a respeito dos complexos patogênicos e dos desejos reprimidos dos neuróticos.Mas, antes de tudo, uma coisa: o exame psicanalítico relaciona com uma regularidade verdadeiramente surpreendente os sintomas mórbidos a impressões da vida erótica do doente; mostra-nos que os desejos patogênicos são da natureza dos componentes instintivos eróticos: e obriga-nos a admitir que as perturbações do erotismo têm a maior importância entre as influências que levam à moléstia, tanto num como noutro sexo.Bem sei que não se acredita de boa mente nesta minha afirmação. Mesmo os investigadores que me seguem solícitos os trabalhos psicológicos são inclinados a julgar que eu exagero a participação etiológica do fator sexual, e vêm a mim perguntando por que outras excitações mentais não hão de dar também motivo aos fenômenos da repressão e formação de substitutivos. Por ora só lhes posso responder: não sei. Mas a experiência mostra que elas não têm a mesma importância. Quando muito, reforçam a ação do elemento sexual, mas nunca podem substituí-lo. Esta ordem de coisas não a determinei mais ou menos teoricamente. Quando, em 1895, publiquei com o Dr. J. Breuer os Estudos sobre a Histeria, ainda não tinha esta opinião; vi-me forçado a adotá-la quando as minhas experiências se tornaram mais numerosas e penetraram mais intimamente o problema. Senhores! Acham-se entre os presentes alguns de meus adeptos e amigos mais chegados, que viajaram comigo até Worcester. Se os interrogarem, ouvirão que todos eles a princípio recebiam com a maior descrença a afirmação da importância decisiva da etiologia sexual, até que pelo exercício analítico pessoal foram obrigados a aceitar como sua própria aquela afirmação.O modo de proceder dos doentes em nada facilita o reconhecimento da justeza da tese a que estamos aludindo. Em vez de nos fornecerem prontamente informações sobre a sua vida sexual, procuram por todos os meios ocultá-la. Em matéria sexual os homens são em geral insinceros. Não expõem a sua sexualidade francamente; saem recobertos de espesso manto, tecido de mentiras, para se resguardarem, como se reinasse um temporal terrível no mundo da sexualidade. E não dei